quarta-feira, 11 de julho de 2012

A luta pela paz se integra organicamente na luta por um socialismo democrático.

Da Carta Maior
DEBATE ABERTO

Vida no capitalismo, uma ideia fora do lugar?

Passada a Rio+ 20, cabe indagar se já há condições políticas para que a acumulação privada possa ser feita sem a concomitante destruição das forças produtivas, sem a reprodução de uma lógica perversa? Sem aprofundar esse debate, a ecologia política deixa lugar à falação protelatória e vazia.

Karl Marx escreveu que "o consumo militar", no sentido propriamente econômico, é o mesmo que se uma nação jogasse na água uma parte do seu capital. Isso beneficiaria, sem dúvida, toda a humanidade. Mas aqui é necessário se debruçar sobre uma questão: pode o capitalismo, em sua configuração atual, sobreviver sem a corrida armamentista? Passada a Rio+ 20, cabe indagar se já há condições políticas para que a acumulação privada possa ser feita sem a concomitante destruição das forças produtivas, sem a reprodução de uma lógica perversa? Sem aprofundar esse debate, a ecologia política deixa lugar à falação protelatória e vazia.

Se, como diria Clemenceau, a guerra é muito séria para ser assunto exclusivo de militares, a preservação de nossos recursos naturais e de nosso meio ambiente é assunto tão essencial para a nossa sobrevivência e para a sobrevivência das instituições democráticas que não pode ser deixada ao arbítrio das elites políticas, da tecnocracia ou até mesmo de um grupo de ambientalistas iluminados. Não existe maior desastre ecológico do que a exploração econômica e as condições subumanas a que é submetida grande parte da população mundial.

Em 1982 – e lá se vão 30 anos – Pierre Trudeau, então primeiro-ministro do Canadá, durante uma conferência de imprensa nas vésperas de uma reunião dos sete principais capitalistas, declarou: "Com o que gastamos em cerca de duas semanas com armamentos, poderíamos garantir alimentação e moradias a todo o mundo, durante um ano, inclusive aos países subdesenvolvidos.”

Para suprir as necessidades militares, despendem-se todos os anos de 700 a 750 milhões de barris de petróleo, o que é duas vezes mais do que consomem anualmente todos os países da África. Nos anos 1970, a Organização Mundial de Saúde (OMS) conseguiu liquidar a varíola no globo terrestre tendo gasto, em apenas uma década, US$ 83 milhões – importância que, à época dava pra comprar apenas um bombardeiro estratégico.

Estimativas da ONU, em 1982, calculavam que o desarmamento nuclear completo liberaria mais de 20 mil cientistas e técnicos nucleares no campo da energia atômica. Eles poderiam tomar parte dos programas nucleares pacíficos de países democráticos da periferia do Velho Mundo.

Segundo o investidor estadunidense R. Sayard, para liquidar o analfabetismo da população mundial, em 20 anos, seriam necessários apenas US$ 1,2 bilhões, soma inferior ao total das despesas militares em um só dia. Mas essa conta soa como sofisma a uma sociedade regida pela lei do valor.

Nos anos 1960, V. Leontiev, economista americano, calculou que uma redução dos investimentos militares em US$ 8 bi liquidaria 254 mil postos de trabalho. Todavia, o investimento desse montante no setor civil criaria 542 mil novos empregos. Uma reorientação que reduzira em 288 mil o número de desempregados nos Estados Unidos. Que argumento sobra aos partidários da corrida armamentista, quando defendem o aumento de despesas em armas destrutivas como única alternativa para a solidez da economia?

É verdade que a militarização da economia da Alemanha Nazista acabou com o desemprego no país, mas será essa a única lição que a economia política estadunidense aprendeu? A morte, dependendo do valor agregado que ela contenha, é um grande negócio, um derivativo seguro e com rentabilidade assegurada?

Para aqueles que se situam no campo progressista do espaço político, a luta pela paz se integra organicamente na luta por um socialismo democrático. O momento é de resgatar a eco política das mãos da elite. Caso contrário, seremos obrigados a trocar o esperançoso "um outro mundo é possível" por um sombrio "nenhum mundo é viável". Enquanto isso não cessa a produção de armas táticas e aumenta a produção de ogivas estratégicas. A ideia de um mundo desnuclearizado, proposta por Obama, continua, em tudo e por tudo,"uma ideia fora do lugar."

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

terça-feira, 3 de julho de 2012

O pensamento conservador brasileiro: a vanguarda do atraso

Da Carta Capital, via Escrevinhador

O Bolsa Família, seus inimigos e sua importância política

publicada quarta-feira, 27/06/2012 às 09:38 e atualizada quarta-feira, 27/06/2012 às 09:38
O Bolsa Família e seus inimigos
Por Marcos Coimbra, na CartaCapital
O pensamento conservador brasileiro – na política, na mídia, no meio acadêmico, na sociedade – tem horror ao Bolsa Família. É só colocar dois conservadores para conversar que, mais cedo ou mais tarde, acabam falando mal do programa.
Não é apenas no Brasil que conservadores abominam iniciativas desse tipo. No mundo inteiro, a expansão da cidadania social e a consolidação do chamado “Estado do Bem-Estar” aconteceu, apesar de sua reação.
Costumamos nos esquecer dos “sólidos argumentos” que se opunham contra políticas que hoje em dia são vistas como naturais e se tornaram rotina. Quem discutiria, atualmente, a necessidade da Previdência Social, da ação do Estado na saúde pública, na assistência médica e na educação continuada?
Mas todas já foram consideradas áreas interditas ao Estado. Que melhor funcionariam se permanecessem regidas, exclusivamente, pela “dinâmica do mercado”. Tem quem pode, paga quem consegue. Mesmo se bem-intencionado, o “estatismo” terminaria por desencorajar o esforço individual e provocar o agravamento – em vez da solução – do problema original.
O axioma do pensamento conservador é simples: a cada vez que se “ajuda” um pobre, fabricam-se mais pobres.
Passaram-se os tempos e ninguém mais diz essas barbaridades, ainda que muitos continuem a acreditar nelas. Hoje, o alvo principal das críticas conservadoras são os programas de transferência direta de renda. Naturalmente, os que crescem e se consolidam. Se permanecerem pequenos, são vistos até com simpatia, uma espécie de aceno que sinaliza a “preocupação social” de seus formuladores.
Mas é uma relação ambígua: ao mesmo tempo que criticam os programas de larga escala, dizem-se seus mentores. Da versão “correta”. Veja-se a polêmica a respeito de quem inventou o Bolsa Família: irrelevante para a opinião pública, mas central para as oposições. À medida que o programa avançou e se expandiu ao longo do primeiro governo Lula, tornando-se sua marca mais conhecida e aprovada, sua paternidade começou a ser reivindicada pelo PSDB.
Argumentavam que sua origem era um programa instituído pelo prefeito tucano de Campinas, José Roberto Magalhães Teixeira, em 1994.
Ele criou de fato o Programa de Renda Mínima, que complementava a receita de pessoas em situação de miséria. Por razões evidentes, limitava-se à cidade e beneficiava apenas 2,5 mil famílias, com uma administração tão complexa que era impossível expandi-lo com os recursos da prefeitura.
Tem sentido dizer que o Bolsa Família nasceu assim? Que esse pequeno experimento local é a matriz do que temos hoje? O maior e mais bem avaliado programa do gênero existente no mundo e que serve de modelo para países ricos e pobres?
O que a discussão sobre o Renda Mínima de Campinas levanta é uma pergunta: se o PSDB estava convencido da necessidade de elaborar um programa nacional baseado nele, por que não o fez?
Não foi Fernando Henrique Cardoso quem venceu a eleição de 1994? O novo presidente não era amigo e correligionário do prefeito? Ou será que FHC não levou o programa do companheiro para o nível federal por ignorá-lo?
Quem sabe conhecesse a iniciativa e até a aplaudisse, mas não fazia parte do arsenal de medidas que achava adequadas para enfrentar o problema da pobreza. Não eram “coisas desse tipo” que o Brasil precisava.
Goste-se ou não de Lula, o fato é que o Bolsa Família só nasceu quando ele chegou à Presidência. E é muito provável que não existisse se José Serra tivesse vencido aquela eleição.
Fazer a arqueologia do programa é bizantino. Para as pessoas comuns não quer dizer nada. Como se vê nas pesquisas, acham até engraçado sustentar que o Bolsa Família não tem a cara de Lula.
Não é isso, no entanto, o que pensam os conservadores. Para eles, continua a ser necessário evitar que essa bandeira permaneça nas mãos do ex-presidente. O curioso é que não gostam do programa. E que, toda vez que o discutem, só conseguem pensar no que fazer para excluir beneficiários: são obcecados pela ideia de “porta de saída”.
Outro dia, tudo isso estava em um editorial de O Globo intitulado “Efeitos colaterais do Bolsa Família”: a tese da ancestralidade tucana, a depreciação do programa – apresentado como reunião de “linhas de sustentação social (?) já existentes” –, a opinião de que teria ficado “grande demais”, a crítica de que causaria escassez de mão de obra no Nordeste, e por aí vai (em momento revelador, escreveu “Era FHC” e “período Lula” – como se somente o primeiro merecesse a maiúscula).
Para a oposição – especialmente a menos informada –, o Bolsa Família é o grande culpado pela reeleição de Lula e a vitória de Dilma Rousseff. Não admira que o deteste.
Para os políticos, as coisas são, porém, mais complicadas. Como hostilizar um programa que a população apoia?
Por isso, quando vão à rua disputar eleições, se apresentam como seus defensores. Como na inesquecível campanha de Serra em 2010: “Eu sou o Zé que vai continuar a obra do Lula!”.
Alguém acredita?
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Orçamento Participativo e gestão democrática: assim que uma cidade deve ser administrada

Da Agência Carta Maior

DEBATE ABERTO

Municípios: capacidade financeira e Orçamento Participativo

As importantes mudanças político-eleitorais que o Brasil experimentou na última década não foram acompanhadas de uma ampliação expressiva da experiência do Orçamento Participativo. Ainda que o modelo inicialmente adotado em Porto Alegre tenha se espalhado para outros municípios, percebe-se uma dificuldade em ampliar a sua utilização pelo País afora.

O sistema político-eleitoral existente em nosso País prevê a realização de eleições a cada 2 anos. Assim, em tese, haveria espaços e momentos específicos para o debate das questões nacional e estadual, separadas da discussão relativa ao âmbito municipal. Sem pretender aqui avaliar os aspectos positivos e negativos desse modelo, o fato é que, apesar de tudo, as eleições municipais ainda tendem a ser “nacionalizadas” ou “estadualizadas” em sua dinâmica política, com todo tipo de conseqüências para a forma do debate travado. Com isso, acaba-se deixando muitas vezes de lado a discussão em torno da gestão pública local, da forma como a cidade vem sendo administrada por seu prefeito e do comportamento dos representantes da população no interior do legislativo municipal. Boa parte da polarização eleitoral tende a ocorrer em torno de quem é candidato alinhado ou não com o governo federal, de quem está sendo apoiado ou não pelo governador do Estado.

Para além do balanço da gestão que se encerra e das perspectivas que podem se abrir para eventual alternativa de bloco de poder no plano local, um aspecto essencial refere-se à capacidade de se promover a criação (ou apenas gerenciar) um volume de recursos compatível com as necessidades existentes quanto às políticas públicas no município. A absoluta maioria dos mais de 5.560 prefeitos, a serem empossados em janeiro de 2013, terão pouca ou quase nenhuma capacidade de resolver o generalizado histórico de graves problemas das respectivas finanças municipais. Os quatro anos de gestão que se abrirão à sua frente representam muito pouco tempo para colocar a gestão econômica em ordem, de forma a abrir espaço para novas perspectivas orçamentárias, voltadas a novos projetos considerados relevantes pela administração pública.

De forma geral, os recursos de receita das cidades já estão completamente comprometidos, desde o início do exercício, com a manutenção de estruturas existentes e com a oferta de serviços básicos a seus cidadãos. É o caso do pagamento de pessoal, manutenção da máquina administrativa da prefeitura, serviços de saúde, serviços de educação, coleta de lixo e limpeza urbana, despesas para assegurar o funcionamento da Câmara Municipal, entre outros. No entanto, é difícil conseguir que um mandato seja destinado apenas a solucionar esse tipo de constrangimento orçamentário, saneando a situação econômico-financeira e abrindo a possibilidade de uma gestão realizadora e de visibilidade para o futuro. Dessa forma, essa situação tende a se tornar crônica, repetindo-se e agravando-se a cada nova eleição.

Responsabilidade fiscal e capacidade econômico-financeira
A capacidade econômico-financeira dos municípios vê-se ainda agravada pelas restrições impostas pela Lei Complementar n° 101/2000, a famosa Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). É inegável a necessidade de estabelecer regras para um maior rigor na gestão financeira dos entes da federação - inclusive, penalizando os maus gestores públicos. No entanto, o tratamento oferecido pela LRF e por sua regulamentação posterior acaba operando como limitador à capacidade de investimento dos municípios, em razão do seu elevado endividamento e da dependência de repasses orçamentários da União. Como parcela expressiva das dívidas públicas municipais sofreu reajustes com base em indicadores financeiros perversos, sua capacidade de honrar tais compromissos no curto prazo não se viabiliza. Inclusive porque até mesmo as receitas do município tendem a se expandir a um ritmo inferior ao crescimento de suas dívidas, a maior parte delas contraídas junto à própria União. 

A configuração fiscal prevista na Constituição de 1988 delegou ao ente municipal uma reduzida capacidade de arrecadação de tributos. A ele cabe o Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU), o Imposto sobre Serviços (ISS), o Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (IBTI) e taxas eventuais. Como o potencial arrecadador de tais fontes é bastante limitado, as cidades acabam por depender essencialmente de transferências da União e dos Estados. A receita própria é bastante reduzida quando comparada aos repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) ou dos repasses dirigidos, como os de despesas vinculadas à saúde e à educação.

A manutenção do equilíbrio do pacto federativo é uma tarefa difícil e de extrema sensibilidade político-administrativa. Assim, deve ser objeto de controle a conhecida tendência de nossa sociedade em aceitar a ampliação de forma desordenada dos gastos públicos e não se preocupar tanto com a qualidade dos serviços oferecidos. No entanto, é preciso reconhecer a necessidade de um maior volume de recursos orçamentários para viabilizar justamente as atribuições que competem ao município, nessa arquitetura de repartição das responsabilidades federativas.

Orçamento Participativo e gestão democrática
Outro elemento importante no debate sobre eleições e política municipal refere-se à participação da população nas decisões do poder local e as alternativas de aprofundamento da gestão democrática das cidades. As principais diretrizes a respeito da vida citadina tendem a ser consolidadas quando da elaboração e votação do orçamento municipal, processo que se realiza de forma sistemática a cada ano. Daí é que, ao longo do processo de democratização em meados da década de 1980, tenham surgido com grande força as idéias de ampliar a capacidade de influência da população na definição de tais prioridades. Esse movimento se concretizava na proposta de “orçamento participativo”, em que a sociedade civil organizada atuava e operava como elemento auxiliar ao Poder Executivo e ao órgão legislativo, a Câmara Municipal. 

No entanto, as importantes mudanças político-eleitorais que o Brasil experimentou ao longo da última década não foram acompanhadas de uma ampliação expressiva da experiência do orçamento participativo. Ainda que o modelo inicialmente adotado em Porto Alegre tenha se espalhado para outros municípios, percebe-se uma dificuldade em ampliar a sua utilização pelo País afora. Pouco mais de 1% das cidades brasileiras adotam algum mecanismo semelhante, como pode ser percebido pelas informações oferecidas pela Rede Brasileira do Orçamento Participativo. De um lado, contribui para tal o conservadorismo característico da forma de se fazer política em nossas terras, onde as elites sempre relutaram historicamente em aceitar a ampliação da participação popular direta. Mas por outro lado, também, repete-se o antigo fenômeno de acomodação das novas forças políticas que chegam ao poder e o abandono de parcela significativa das antigas bandeiras de transformação social e institucional.

Ampliar a participação popular
É importante frisar que existe um grande espaço aberto para iniciativas que visem ao aprofundamento da gestão democrática das cidades. Por um lado, medidas de estímulo à participação dos cidadãos em importantes espaços da vida municipal, como saúde, educação, cultura, esportes e outros. A proximidade do indivíduo com esse tipo de serviço público permite uma maior participação nas instituições responsáveis pelos mesmos. De outro lado, para as cidades de grande porte faz-se necessário também uma aproximação da administração pública em direção aos habitantes. É o caso da constituição de mecanismos de redução da distância junto às Administrações Regionais ou Subprefeituras, com a possibilidade de participação direta da população na eleição de seus representantes.

Na verdade, trata-se da necessidade de criação de uma alternativa ao movimento de privatização das cidades. Ao longo dos últimos anos, inclusive com o apoio ideológico da ideologia neoliberal, o espaço público passou a sofrer um processo crescente de influência da lógica privatista em sua gestão, com a transferência de áreas e atividades para o setor privado. Em função disso, observou-se uma forte tendência à descaracterização de manifestações genuínas e locais, em favor de ondas de pasteurização e banalização comandadas pela lógica universalizante do capital. 

Portanto, é sempre bom lembrar a origem histórica da palavra cidade – “polis”, em grego e depois em latim. Assim, o espaço da cidadania, da “política” em seu sentido pleno era o espaço da própria vida urbana. Ou seja, trata-se de uma esfera de vivência coletiva e pública, por sua própria natureza. O momento eleitoral é oportuno para que sejam recolocados esses valores intrínsecos à questão urbana e da cidadania, que foram aos poucos sendo esquecidos e deixados à margem do debate político.

Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Boa notícia para a saúde pública

Via Portal Nassif

Câmara aprova prazo para tratamento de câncer no SUS

Da Agência Câmara

Texto também prevê prioridade de acesso a analgésicos para pacientes com dor provocada pelo câncer.
Renato Araújo
Movimentação de parlamentares durante sessão
Plenário aprovou prazo máximo de 60 dias, contados do diagnóstico, para o paciente começar a ser tratado.
O Plenário aprovou nesta terça-feira (5) proposta que estabelece o prazo máximo de 60 dias, contados do diagnóstico médico, para o paciente começar a receber o tratamento contra câncer no Sistema Único de Saúde (SUS).
O texto aprovado é o de uma emenda do relator pela Comissão de Seguridade Social e Família, deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS), ao Projeto de Lei 3887/97, do Senado. Devido a mudanças no projeto, a matéria retorna ao Senado.
....
O prazo para começo do tratamento poderá ser menor, conforme a necessidade terapêutica do caso. Esse prazo será considerado cumprido quando se iniciar efetivamente o primeiro tratamento (cirurgia, radioterapia ou quimioterapia).
Segundo Perondi, o objetivo da proposta é acelerar o início do tratamento. Ele ressaltou que, atualmente, uma paciente com câncer de mama pode levar até seis meses para começar a ser tratada. "Nesse período, o que era um nódulo já avançou para uma fase mais grave, e a chance de cura cai de 80% para 10%", disse.
Perondi afirmou, no entanto, que a aprovação do projeto não garante bom atendimento no SUS. “Temos de lutar para que essa lei não fique no papel. Do jeito que está o financiamento da saúde, perdemos para os países africanos”, disse.
A emenda de Perondi foi elaborada com base em outra emenda, de autoria das deputadas Carmen Zanotto (PPS-SC) e Flávia Morais (PDT-GO).
Carmen Zanotto lembrou que o prazo de 60 dias foi um acordo possível com o governo para começar o procedimento necessário, mas afirmou que a intervenção poderá ocorrer em tempo menor, de acordo com o diagnóstico médico.
Beto Oliveira
Dep. Darcísio Perondi (PMDB-RS)
Perondi: objetivo da proposta é acelerar o início do tratamento.
Para Flávia Morais, conforme o tipo de tratamento, nem a metade dos que procuram o SUS conseguem realizá-lo. “Auditoria do Tribunal de Contas da União [TCU] revelou que a média de espera pela radioterapia é de três meses”, afirmou.
Segundo ela, os dados também revelaram que, dos que deveriam ter sido atendidos com cirurgia, apenas 46% conseguiram passar pelo procedimento.
Revisão periódica
De acordo com o texto aprovado, a padronização de terapias do câncer, cirúrgicas e clínicas deverá ser revista e atualizada sempre que necessário para se adequar ao conhecimento científico e à disponibilidade de novos tratamentos comprovados.
Medicamentos contra dor
O principal ponto em torno do qual versava o projeto original do Senado permaneceu no texto, mas de maneira mais simplificada, prevendo que os pacientes com dor provocada pelo câncer terão prioridade na prescrição e no acesso gratuito a analgésicos opiáceos ou correlatos.
O texto do Senado especificava os medicamentos, registros para sua liberação ao paciente e penalidade para a venda irregular.
Unidades de tratamento
Outra novidade da emenda aprovada é a obrigatoriedade de os estados elaborarem planos regionais de instalação de serviços especializados em oncologia. O objetivo é contemplar áreas que não tenham acesso a esses serviços.
“A partir desse projeto de lei, teremos outro olhar para os municípios nos quais não há acesso aos tratamentos contra o câncer”, afirmou a deputada Carmen Zanotto.
O deputado João Ananias (PCdoB-CE) criticou, no entanto, a falta de definição dos meios para garantir a expansão das unidades de tratamento de câncer. "Quem vai prover isso nos municípios pobres?”, questionou.
Para o deputado Marcus Pestana (PSDB-MG), a melhoria no tratamento do câncer depende de investimentos do governo. Para ele, os recursos atuais têm sido insuficientes.

Íntegra da proposta:

Reportagem – Eduardo Piovesan e Carol Siqueira
Edição – Pierre Triboli

Rio+20: Assim como está, nega qualquer futuro promissor.

Da Agência Carta Maior
Colunistas| 02/06/2012 | Copyleft 

DEBATE ABERTO

A ausência de uma nova narrativa na Rio+20

O vazio básico do documento da ONU para a Rio+20 reside numa completa ausência de uma nova narrativa ou de uma nova cosmologia que poderia garantir a esperança de um “futuro que queremos” lema do grande encontro. A narrativa atual é a da conquista do mundo em vista do progresso e do crescimento ilimitado.

O vazio básico do documento da ONU para a Rio+20 reside numa completa ausência de uma nova narrativa ou de uma nova cosmologia que poderia garantir a esperança de um “futuro que queremos” lema do grande encontro. Assim como está, nega qualquer futuro promissor.

Para seus formuladores, o futuro depende da economia, pouco importa o adjetivo que se lhe agregue: sustentável ou verde. Especialmente a economia verde opera o grande assalto ao último reduto da natureza: transformar em mercadoria e colocar preço àquilo que é comum, natural, vital e insubstituível para a vida como a água, solos, fertilidade, florestas, genes etc. O que pertence à vida é sagrado e não pode ir para o mercado dos negócios. Mas está indo, sob o imperativo categórico: apropia-te de tudo, faça comércio com tudo , especialmente com a natureza e com seus bens e serviços.

Eis aqui o supremo egocentrismo e a arrogância dos seres humanos, chamado também de antropocentrismo. Estes veem a Terra como um armazém de recursos só para eles, sem se dar conta de que não somos os únicos a habitar a Terra nem somos seus proprietários; não nos sentimos parte da natureza, mas fora e acima dela como seus “mestres e donos”. Esquecemos, entretanto, que existe toda a comunidade de vida visível (5% da biosfera) e os quintilhões de quintilhões de microrganismos invisíveis (95%) que garantem a vitalidade e fecundidade da Terra. Todos estes pertencem ao condomínio Terra e têm direito de viver e conviver conosco. Sem as relações de interdependência com eles, sequer poderíamos existir. O documento desconsidera tudo isso. Podemos então dizer: Com ele não há salvação. Ele abre o caminho para o abismo. Enquanto tivermos tempo, urge evitá-lo.

Tal vazio se deriva da velha narrativa ou cosmologia. Por narrativa ou cosmologia entendemos a visão do mundo que subjaz às idéias, às práticas, aos hábitos e aos sonhos de uma sociedade. Por ela se procura explicar a origem, a evolução e o propósito do universo, da história e o lugar do ser humano.

A nossa atual é a narrativa ou a cosmologia da conquista do mundo em vista do progresso e do crescimento ilimitado. Caracteriza-se por ser mecanicista, determinística, atomística e reducionista. Por força desta narrativa 20% da população mundial controla e consome 80% de todos os recursos naturais; metade das grandes florestas foram destruídas, 65% das terras agricultáveis, perdidas, cerca de 27 a cem mil espécies de seres vivos desaparecem por ano (Wilson) e mais de mil agentes químicos sintéticos, a maioria tóxicos, são lançados na natureza. Construímos armas de destruição em massa, capazes de eliminar toda vida humana. O efeito final é o desequilíbrio do sistema-Terra que se expressa pelo aquecimento global. Com os gases já acumulados, até 2035 fatalmente se chegará a 3-4 graus Celsius, o que tornará a vida, assim como a conhecemos praticamente impossível.

A atual crise econômico-financeira que mergulha nações inteiras na miséria nos fazem perder a percepção do risco e conspiram contra qualquer mudança necessária de rumo.

Em contraposição, surge a narrativa ou a cosmologia do cuidado e da responsabilidade universal, potencialmente salvadora. Ela ganhou sua melhor expressão na Carta da Terra. Situa nossa realidade dentro da cosmogênese, aquele imenso processo de evolução que se iniciou há 13,7 bilhões de anos. O universo está continuamente se expandindo, se auto-organizando e se autocriando. Nele tudo é relação em redes e nada existe fora desta relação. Por isso todos os seres são interdependentes e colaboram entre si para garantirem o equilíbrio de todos os fatores. Missão humana reside em cuidar e manter essa harmonia sinfônica. Precisamos produzir, não para a acumulação e enriquecimento privado mas para o suficiente e decente para todos, respeitando os limites e ciclos da natureza.

Por detrás de todos os seres atua a Energia de fundo que deu origem e sustenta o universo permitindo emergências novas. A mais espetacular delas é a Terra viva e os humanos como a porção consciente dela, com a missão de cuidá-la e de responsabilizar-se por ela.

Esta nova narrativa garante “o futuro que queremos”. Do contrário seremos empurrados fatalmente ao caos coletivo com consequências funestas. Ela se revela inspiradora. Ao invés de fazer negócios com a natureza, nos colocamos no seio dela em profunda sintonia e sinergia, respeitando seus limites e buscando o "bem viver" que é a harmonia entre todos e com a mãe Terra. Característica desta nova cosmologia é o cuidado no lugar da dominação, o reconhecimento do valor intrínseco de cada ser e não sua mera utilização humana, o respeito por toda a vida e dos direitos da natureza e não sua exploração e a articulação da justiça ecológica com a social.

Esta narrativa está mais de acordo com as reais necessidades humanas e com a lógica do próprio universo. Se o documento Rio+20 a adotasse, como pano de fundo, criar-se-ia a oportunidade de uma civilização planetária na qual o cuidado, a cooperação, o amor, o respeito, a alegria e espiritualidade ganhariam centralidade. Tal opção apontaria, não para o abismo, mas para o “o futuro que queremos”: uma biocivilização da boa esperança.

Leonardo Boff é teólogo e escritor.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

28 de Maio: Dia Internacional da Luta pela Saúde da Mulher


Manuela Pagan
MSN – Corpo e Saúde
Adital
Sete descobertas da ciência para reforçar a saúde feminina

Soluções simples para reverter as doenças mais comuns entre as mulheres

As mudanças no estilo de vida feminino, uma eterna disputa entre o desenvolvimento profissional e os cuidados com a família, não trouxeram somente mais autonomia. Doenças que antes eram consideradas tipicamente masculinas agora passam a preocupar também as mulheres, como é o caso do infarto e da insuficiência cardíaca.

"Poucas horas de sono, alimentação inadequada e sedentarismo são só algumas das imprudências que causaram o aumento desses problemas", afirma o geriatra Paulo Camiz, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Somados às alterações hormonais, capazes de dar um nó na saúde e no metabolismo feminino, os maus hábitos formam um cenário ameaçador, que exige atenção. Sorte que a Ciência está ao seu lado e não para de oferecer descobertas que se traduzem em mais qualidade de vida. Aproveite o Dia Internacional da Luta pela Saúde da Mulher (28 de maio) para inserir algumas dicas na sua rotina.

Prevenindo a osteoporose

A diminuição do estrogênio, típica da menopausa, causa uma perda óssea importante. Dados divulgados pela International Osteoporosis Foundation (IOF) indicam que cerca de 20% das mulheres com mais de 50 anos têm osteoporose e 15% sofrem uma fratura vertebral, decorrente da osteoporose. Mas a maioria delas nem desconfia disso, já que esse problema só causa dor em um terço dos casos.

O mais adequado é prevenir a doença. "Tomar quinze minutos de sol três vezes por semana, manter uma dieta rica em vitaminas e minerais, além da prática regular de atividade física são boas medidas preventivas", afirma o ginecologista Raul Nakano, da clínica de fertilidade Ferticlin. A musculação é uma das melhores atividades para prevenir a osteoporose, desde que realizada com supervisão profissional. Um estudo realizado pela Northwestern University, nos Estados Unidos, mostra que esse tipo de exercício traz o aumento na densidade óssea da coluna e do quadril, áreas mais comumente afetadas pela osteoporose nas mulheres.

Sintomas da menopausa

Ondas de calor, alterações do sono e do humor, suores noturnos e diminuição do desejo sexual são sintomas relatados por cerca de 70% das mulheres que chegam à menopausa. Mas, além da reposição hormonal, existem outros métodos para combater os problemas.

Um amplo estudo, da Universidade de Delaware, nos Estado Unidos, indica que comer duas porções de soja por dia pode reduzir a frequência e a severidade das ondas de calor comuns do período em até 26%. Os resultados, publicados no periódico Menopause: The Journal of the North American Menopause Association, envolveram mais de 1.200 mulheres ao todo.

De acordo com outro estudo do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, o alimento à base de soja produz efeitos semelhantes à terapia hormonal, comumente aplicada em mulheres que passam pelo climatério. A dieta foi capaz de reduzir as típicas ondas de calor em até 65,4% e problemas musculares e articulares em 40%, além de diminuir a secura vaginal. Raul Nakano explica que a ação da soja se deve à presença de isoflavonas, mas o mecanismo de ação dessas substâncias ainda não está totalmente esclarecido.

Reposição hormonal

A progesterona usada na reposição hormonal tem função protetora contra o câncer de endométrio (o estrogênio, também usado na reposição, faz essa camada se espessar). Mas, por outro lado, a progesterona pode desencadear tumores nas mamas. Um estudo realizado pelo National Institute of Health (EUA) revelou que pacientes de reposição hormonal combinada (progesterona e estrogênio) tinham maiores chances de desenvolver câncer de mama. Apesar das limitações desse estudo, que usou uma dose muito alta de hormônios para análise, o resultado foi aceito pela comunidade médica. Já o uso do estrogênio isoladamente (feito em mulheres que retiraram o útero) não apresenta esse risco.
Não é de hoje que se discutem os riscos e benefícios da reposição hormonal. O ginecologista Raul explica que as vantagens na atenuação dos sintomas (calores, sudorese, estresse) são consenso. Mas os riscos do tratamento ainda deixam as mulheres com medo de optar pelos hormônios.

Trabalho e estresse

Um estudo feito pelo National Heart, Lung and Blood Institute, nos Estados Unidos, e apresentado no encontro anual da American Heart Association, em Chicago, avaliou 17.415 mulheres e descobriu que aquelas que ficavam estressadas no trabalho tinham um risco 40% maior de ter um ataque cardíaco. Nacionalmente, um levantamento realizado pela seguradora Sulamérica mostra que a rotina das brasileiras também é marcada pelo estresse e, em consequência, pelo aumento de doenças cardiovasculares. "Diminuir as obrigações femininas é quase impossível, mas dá para mexer na rotina e melhorar a alimentação, além de fazer exercícios para manter a saúde em dia", afirma o geriatra Paulo Camiz.

Doenças Cardíacas

Uma pesquisa da American Heart Association, indica que cerca de 500 mil mulheres morrem todos os anos nos Estados Unidos por doenças do coração, superando o número de homens mortos pela mesma causa. Até o início dos anos 80, eles eram a maioria, mas passaram a se prevenir e se tratar mais. O número de mortes após um primeiro infarto é de 38% para as mulheres, contra 25% para os homens. As mortes súbitas, sem sintomas, por doenças do coração também ocorrem mais em mulheres (65%) do que em homens (50%).

O geriatra Paulo Camiz explica que a rotina atribulada deixa menos tempo para as mulheres cuidarem da saúde. Redução das horas de lazer, da prática de atividade física e também das horas de sono são algumas das mudanças mais destacadas. "Paralelamente a isso, notamos que os médicos não dão tanto crédito a queixas cardiovasculares quando elas partem das mulheres", afirma o especialista. Os resultados não poderiam ser mais desastrosos. O especialista recomenda atenção no trato à saúde, dedicando-se ao trabalho sem esquecer-se da saúde e do bem-estar.

Sedentarismo

Os homens brasileiros são mais ativos que as mulheres: 39,6% se exercitam regularmente, contra uma frequência de 22,4% entre elas. Os dados são da pesquisa Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), divulgada pelo Ministério da Saúde. Outra recente pesquisa intitulada "Os Pés dos Brasileiros", feita com 26.339 pessoas, mostrou que as mulheres brasileiras são mais sedentárias que os homens. O estudo encontrou que 57,6% dos homens e apenas 38,8% das mulheres praticam algum tipo de esporte. Paulo Camiz explica que o sedentarismo é, atualmente, considerado uma doença pela Organização Mundial da Saúde e deve ser tratado como tal. "Ele é um dos principais causadores de outras doenças, como a obesidade e o diabetes" A dica é praticar ao menos 30 minutos de atividade física três vezes por semana para combater o sedentarismo e se proteger desse mal.
Prevenção do câncer de mama Um estudo publicado no periódico Radiology constata que a mamografia reduz significantemente a mortalidade por câncer de mama. Chamado Swedish Two-County Trial of mammographic screening, ele foi o primeiro teste que utiliza apenas a mamografia para rastrear diminuições nas mortes por câncer de mama. O exame é um dos mais importantes para a saúde da mulher, mas, segundo a Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (FEMAMA) 31% das mulheres não fazem a mamografia com a periodicidade necessária. Outra pesquisa, realizada pela HealthStat Consulting, dos Estados Unidos, aponta que mulheres diagnosticadas com câncer a partir de um exame de mamografia costumam ter tratamento mais simples, menos chance de reincidência do problema e menor índice de mortalidade em comparação a mulheres que descobriram a doença por outros métodos de detecção.

O ginecologista Raul conta que a idade ideal de início do exame ainda é motivo de controvérsia dentro da comunidade médica. O consenso é que se deve realizar o exame de mamografia entre os 50 e 69 anos de idade preferencialmente anualmente. O rastreamento com mamografia também pode ser iniciado mais precocemente, quando a paciente tiver um parente de primeiro grau que teve a doença. Nesse caso o exame ser realizado 10 anos antes da idade do diagnóstico dessa doença no familiar.

sábado, 12 de maio de 2012

Saber cuidar

Do Porta Adital


Leonardo Boff
Teólogo, filósofo e escritor
Adital
O tema do cuidado é, nos últimos tempos, cada vez mais recorrente na reflexão cultural. Primeiramente, foi veiculado pela medicina e pela enfermagem, pois representa a ética natural destas atividades. Depois foi assumido pela educação e pela ética e feito paradigma por filósofas e teólogas feministas especialmente norteamericanas. Veem nele um dado essencial da dimensão da anima, presente no homem e na mulher. Produziu e continua produzindo uma acirrada discussão especialmente nos EUA entre a ética de base patriarcal centrada no tema da justiça e a ética de base matriarcal assentada no cuidado essencial.
Ganhou força especial na discussão ecológica, constituindo uma peça central da Carta da Terra. Cuidar do meio-ambiente, dos recursos escassos, da natureza e da Terra se tornaram imperativos do novo discurso. Por fim, viu-se o cuidado como definição essencial do ser humano, como é abordado por Martin Heiger em Ser e Tempo recolhendo uma tradição que remonta aos gregos, aos romanos e aos primeiros pensadores cristãos como São Paulo e Santo Agostinho.
Constata-se, outrossim, que a categoria cuidado vem ganhando força sempre que emergem situações críticas. É ele que impede que as crises se transformem em tragédias fatais.
A Primeira Grande Guerra (1914-1918), desencadeada entre países cristãos, destruirá o glamour ilusório da era vitoriana e produziu profundo desamparo metafísico. Foi quando Martin Heidegger (1889-1976) escreveu seu genial Ser e Tempo (1929), cujos parágrafos centrais (§ 39-44) são dedicados ao cuidado como ontologia do ser humano.
Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), despontou a figura do pediatra e psicólogo D. W. Winnicott (1896-1971) encarregado pelo governo inglês para acompanhar crianças órfãs ou vítimas dos horrores dos bombardeios nazistas sobre Londres. Desenvolveu toda uma reflexão e uma prática ao redor dos conceitos de cuidado (care), de preocupação pelo outro (concern) e de conjunto de apoios a crianças ou a pessoas vulneráveis (holding), aplicáveis também aos processos de crescimento e de educação.
Em 1972 o Clube de Roma lançou o alarme ecológico sobre o estado doentio da Terra. Identificou a causa principal: o nosso padrão de desenvolvimento, consumista, predatório, perdulário e totalmente sem cuidado para com os recursos escassos da natureza e os dejetos produzidos. Depois de vários encontros organizados pela ONU a partir dos anos 70 do século passado, chegou-se à proposta do um desenvolvimento sustentável, como expressão do cuidado humano pelo meio ambiente mas centrado especialmente no aspecto econômico.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) e a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) elaboraram em 1991 uma estratégia minuciosa para o futuro do planeta sob o signo Cuidando do Planeta Terra (Caring for the Earth 1991). Ai se diz: A ética do cuidado se aplica tanto a nível internacional como a níveis nacional e individual; nenhuma nação é autossuficiente; todos lucrarão com a sustentabilidade mundial e todos estarão ameaçados se não conseguirmos atingi-la.
Em março de 2000, recolhendo esta tradição, termina em Paris, depois de oito anos de trabalho a nível mundial, a redação da Carta da Terra. A categoria sustentabilidade, cuidado ou o modo sustentável de viver constituem os dois eixos articuladores principais do novo discurso ecológico, ético e espiritual. Em 2003 a UNESCO assumiu oficialmente a Carta da Terra e a apresentou como um substancial instrumento pedagógico para a construção responsável de nosso futuro comum.
Em 2003 os Ministros ou Secretários do meio ambiente dos países da América Latina e do Caribe elaboram notável documento Manifesto pela vida, por uma ética da sustentabilidade onde a categoria cuidado é incorporada na ideia de um desenvolvimento para que seja efetivamente sustentável e radicalmente humano.
O cuidado está especialmente presente nas duas pontas da vida: no nascimento e na morte. A criança sem o cuidado não existe. O moribundo precisa do cuidado para sair decentemente desta vida.
Quando desponta alguma crise num grupo gerando tensões e divisões, é a sabedoria do cuidado o caminho mais adequado para ouvir as partes, favorecer o diálogo e buscar convergências. O cuidado se impõe quando irrompe alguma crise de saúde que exige internação hospitalar. O cuidado é posto em ação por parte dos médicos, médicas, dos enfermeiros e enfermeiras, decidindo sobre o que melhor fazer.
O cuidado é exigido em praticamente todas as esferas da existência, desde o cuidado do corpo, da vida intelectual e espiritual, da condução geral da vida até ao se atravessar uma rua movimentada, Como já observava o poeta romano Horácio, "o cuidado é aquela sombra que nunca nos abandona porque somos feitos a partir do cuidado”.
Hoje dada a crise generalizada seja social seja ambiental, o cuidado torna-se imprescindível para preservarmos a integridade da Mãe Terra e salvaguardar a continuidade de nossa espécie e de nossa civilização.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A todas as mães

Via Portal Nassif


Homenagem às mães


Dias atrás critiquei a Procter & Gamble por importar pasta de dente da sua matriz (Alemanha) e vender com embalagem escrita em português, hoje quero mostrar o belo trabalho que a empresa dedicou às mães e à Olimpíada de Londres:

sábado, 28 de abril de 2012

"Para ser sustentável o desenvolvimento há de ser economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto."

Do Portal Adital
Melhoras ao modelo vigente de sustentabilidade?

Leonardo Boff
Teólogo, filósofo e escritor
Adital
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Para ser sustentável o desenvolvimento há de ser economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto. Já submetemos à crítica este modelo standard. Mas devemos ser justos. Houve analistas e pensadores que se deram conta das insuficiências deste tripé. Acrescentaram-lhes outras pilastras complementares. Vejamos algumas delas.
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Gestão da mente sustentável: Para que exista um desenvolvimento sustentável importa previamente construir novo design mental, chamado por seu formulador, o Prof. Evandro Vieira Ouriques, da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, de gestão da mente sustentável. Tenta resgatar o valor da razão sensível pela qual o ser humano se sente parte da natureza, se impõe um autocontrole para superar a compulsão ao produtivismo e ao consumismo. Visa a um desenvolvimento integral, e não só econômico, o que envolve dimensões do humano. É um avanço inegável. Melhor seria se entendesse Terra-Humanidade-Desenvolvimento como um único e grande sistema interconectado, fundando um novo paradigma.
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Generosidade: Rogério Ruschel, editor da revista eletrônica Business do Bem, acrescentou uma outra pilastra: a categoria ética da generosidade. Esta se funda num dado antropológico básico: o ser humano não é apenas egoísta buscando seu bem particular, mas é muito mais um ser social que coloca os bens comuns acima dos particulares ou os interesses dos outros no mesmo nível de seus próprios. Generoso é aquele que comparte, que distribui conhecimentos e experiências sem esperar nada em troca. Uma sociedade é humana quando além da justiça necessária incorpora a generosidade e o espírito de cooperação de seus cidadãos.
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Para Ruschel, a generosidade se opõe frontalmente ao lema básico do capital especultativo do greed is good, isto é, boa é a ganância. Ela não é boa; mas, perversa, porque quase afundou todo o sistema econômico mundial. Na generosidade há algo de verdadeiro porque especificamente humano. Na feliz metáfora do jornalista Marcondes, da ONG Envolverde, há que se distinguir a generosidade da simplesfilantropia, da responsabilidade social e da sustentabilidade. A primeira, dá o peixe ao faminto; aresponsabilidade social, ensina a pescar; a sustentabilidade preserva o rio que permite pescar e com o peixe matar a fome. Entretanto, parece-nos, que somente ela é insuficiente. Demanda outras dimensões como a superação da desigualdade, a forma de consumo e a atenção à comunidade de vida que precisa também ser alimentada e preservada.
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Cultura: Em 2001 o australiano John Hawkes lançou "o quarto pilar da sustentabilidade: a função essencial da cultura no planejamento público”. No Brasil foi mérito de Ana Carla Fonseca Reis, fundadora da empresa "Garimpo de Soluções” e autora do livro Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável de tê-la assumido, difundindo-a em muitos cursos e palestras. Este dado da cultura é fundamental, porque encerra princípios e valores ausentes no conceito standard de sustentabilidade Favorece o cultivo das dimensões tipicamente humanas como a coesão social, a arte, a religião, a criatividade e as ciências. Deixa para trás a obsessão pelo lucro e pelo crescimento material e abre espaço para uma forma de habitar a Terra que condiz melhor com a lógica da natureza. Ocorre que esta dimensão da cultura foi sequestrada pelos interesses comerciais. Só será realmente eficaz quando, libertada, fundar uma relação criativa com a natureza.
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neuroplasticidade do cérebro: Cientistas se dão conta de que a estrutura neural do cérebro é extremamente plástica. Através de comportamentos críticos ao sistema consumista, se podem gerar hábitos de moderação e respeitadores dos ciclos da natureza. O cérebro coevolui consonante a evolução exterior, dando-se ai uma relação de interdependência.
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Por fim, o Cuidado essencial: eu mesmo desenvolvi a categoria "cuidado” como essencial para a sustentabilidade. Entendo o cuidado exposto em dois textos – Saber cuidar: ética do humano-compaixão pela Terra (1999) e O cuidado necessário (2012) como uma constante cosmológica e biológica. Detalhes podem ser lidos nos livros referidos.
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Nesta fase de busca de formas mais adequadas para garantir a vitalidade da Terra e o futuro de nossa espécie, toda contribuição é bem vinda e sempre traz alguma luz.