domingo, 22 de maio de 2011

Ih! A torcida da oposição e da velha mídia pela volta da inflação. Que não veio!

Via Tijolaço
Em outro excelente artigo no Correio Braziliense, o sociólogo Marcos Coimbra analisa a “torcida” da oposição (e da mídia, digo eu) , pelo recrudescimento da inflação como forma de desgaste do Governo Dilma.
Ele analisa as pesquisas sobre o tema e eu acrescento que, pelo menos no curto prazo, a “decepção” com o fracasso da “onda inflacionista” já levou as forças conservadoras para outro caminho.
Que, como no caso do terrorismo inflacionário que perdurou até a entrada da Petrobras rompendo a manipulação dos preços dos combustíveis, vai exigir firmeza a atitudes do Governo.
Esperar que o “mercado” acertasse sozinho os preços equivale a acreditar que os fatos dissolvam as versões do fato que a mídia produzirá, dia após dia.
Num caso como noutro, é agir.

A volta da inflação

Marcos Coimbra
Já faz algum tempo, o principal assunto discutido no país é a “volta da inflação”. Há políticos e economistas que não conseguem dar duas palavras sem a mencionar. Para a maior parte da imprensa, parece que não há nada tão importante.
É um daqueles temas em que se percebe com clareza como é difícil a “neutralidade técnica” no debate público. Pois, se são muitos os que veem razões para se preocupar com o risco de que ela volte a assustar, também são ponderáveis os motivos dos que não acreditam que estejamos vivendo ameaça maior.
Quem mais fala nela é a oposição, seja no meio político ou na mídia. Inversamente, o governo tem procurado mostrar que, embora apresente tendência de alta, o cenário “objetivo” não justifica o temor de que ela se torne incontrolável.
Sem discutir de que lado está a verdade (se é que verdade tem lado), o fato é que o assunto funciona como argumento para os que não gostam de Lula e não gostaram da vitória de Dilma. Dizer que “a inflação está de volta” é uma forma de crítica retrospectiva ao que o ex-presidente fez, especialmente no último ano. E é uma maneira de desmerecer o resultado da eleição presidencial.
A “volta da inflação”, nessa perspectiva, é o preço que o país inteiro pagaria pela ânsia continuísta dos que detinham o poder e não titubearam em colocá-lo outra vez à beira do abismo hiperinflacionário. É, também, uma justificativa que torna menos vergonhosa a derrota que as oposições sofreram nas urnas, ao demonstrar a imoralidade do sucesso lulista. Elas teriam perdido para uma gigantesca mentira, não por seus próprios erros.
Para uma parcela nada pequena da sociedade brasileira, porém, a discussão a respeito da “volta da inflação” não faz sentido. São os que acham que ela nunca foi embora e que, se não foi, como poderia voltar?
Comparando pesquisas feitas ao longo da última década, vemos que as expectativas de que a inflação ficasse menor sempre foram pequenas, mesmo em períodos nos quais ela mostrava evidências eloquentes de queda.
Do início dos anos 2000 (passados, portanto, mais de seis anos do Plano Real e vencida a instabilidade do fim da década de 1990) até hoje, a proporção dos que concordavam com a frase “a inflação vai diminuir nos próximos seis meses” nunca ultrapassou 20%, em dezenas de pesquisas da Vox Populi. É verdade que ela variou para menos que 10% em alguns momentos, mas sempre teve esse teto.
Como fruto de uma longa e traumática experiência de convívio com a inflação ao longo de mais de 50 anos, a sociedade brasileira se acostumou com a sensação de que a inflação sempre aumenta, como se fosse dotada de alguma inexorabilidade. Mesmo depois de “objetivamente” controlada, ela continuou a existir no plano subjetivo: apenas uma em cada cinco pessoas (na melhor das hipóteses) apostava que ficaria menor no futuro imediato.
O que variou nas pesquisas foi a relação entre as respostas “a inflação vai ficar como está” e “vai aumentar”. Até o fim do primeiro mandato de Lula, o temor de que ela avançasse superava a expectativa de que, embora não caindo, ficasse onde estava. De lá ao fim de 2008, inverteram-se as proporções, com a progressiva redução das expectativas mais pessimistas.
Na crise internacional que começou então (e que está longe de terminar), houve um forte aumento do sentimento de que a inflação iria subir, em decorrência tanto de fatores objetivos, quanto subjetivos. Mas, já no fim do primeiro trimestre de 2009, o medo cedeu. Novamente, passou a predominar a expectativa de que a situação da inflação não se alterasse.
Agora, em pesquisa feita no mês de abril, vemos algo semelhante ao que aconteceu em 2008: crescer o temor de que a inflação aumentará, cair a sensação de que ela ficará como está. Nenhuma mudança dramática, no entanto: em dezembro, temiam que ela crescesse 33% dos entrevistados, contra 49% no mês passado. Subir 16% é subir, mas não muito.
Ninguém duvida que, se a inflação ficar muito alta, fugindo do controle do governo, sua imagem será abalada. Mas erra quem põe suas fichas na torcida de que a “volta da inflação”, nos níveis esperados, o desgaste.

sábado, 21 de maio de 2011

Caso Palocci: as miçangas

Via Conversa Afiada

Eleição já é com lista fechada. Pelos empresários


O dono da Projeto e o grande eleitor

o que se deduz do excelente artigo de Maria Inês Nassif, no blog do Nassif:

O escândalo Palocci, por Inês Nassif


O escândalo Palocci e as miçangas



Por Maria Inês Nassif
Para o Blog Luis Nassif Online


Até o momento, mesmo com todos os revezes de sua vida pública, a imagem de Antonio Palocci, titular da Casa Civil, que emerge das denúncias de que teria aumentado o seu patrimônio pessoal em 20 vezes de 2006 a 2010, está longe de ser a de um ministro enfraquecido. É o retrato de corpo inteiro de um político muito forte. Palocci não tem poder apenas porque isso foi conferido a ele pela presidente da República, Dilma Rousseff, mas pela capacidade de se investir do papel de fiador de governos petistas, principalmente junto ao mercado. No governo de Luiz Inácio Lula da Silva, foi o fiador de um candidato eleito considerado pelo mercado como um incendiário; no governo Dilma, de uma presidente com um passado revolucionário que carregava a tiracolo um ministro da Fazenda, Guido Mantega, nada ortodoxo, e optou por tirar do Banco Central outro “fiador” do mercado, Henrique Meirelles.


No governo Lula, Palocci não caiu porque se viu envolvido em denúncias. Enquanto eram apenas elas, foi suficientemente poupado pelo mercado, pelos jornais e também pela oposição. Caiu devido a um excesso seu, depois de já ter retomado o controle sobre seu destino no Congresso. Depois de sair-se muito bem em uma ida ao Legislativo para prestar esclarecimentos, sua assessoria divulgou o sigilo bancário de um caseiro, a testemunha do caso. Se esse excesso não tivesse acontecido, é provável que tivesse continuado no governo, inclusive fortalecido, numa conjuntura em que o presidente estava frágil e o PT sob fogo cruzado. Seria, pelo menos naquele momento, um ministro forte sustentando um presidente fraco. Palocci não voltou para o governo antes de ter sido absolvido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) mas, já nessa condição e ainda na campanha eleitoral de Dilma, colocou-se – e foi colocado – novamente como o grande interlocutor do partido junto ao poder econômico. A manutenção de Guido Mantega na pasta da Fazenda foi um aceno, para o partido, de que a presidenta não abandonaria a opção desenvolvimentista representada pelo titular da pasta. A escolha de Palocci como “gerente”, todavia, deu a ele o espaço de articulador e mediador junto a setores empresariais e financeiros.


Palocci ocupou todos os espaços de poder conferidos à Casa Civil: não há um assunto de governo, hoje, que não seja acompanhado pelo ministro. Não interessa para esses setores, que têm uma forte ascendência também sobre os partidos de oposição, que se mude a relação de poder dentro de um governo cujos espaços divide com a esquerda, ou que desapareça do cenário um político pragmático, que tem bom trânsito a empresários e a partidos mais conservadores da base aliada, além de uma certa simpatia da oposição. Se cair, será por seus excessos, não pelo zelo da oposição em defenestrá-lo.


O primeiro excesso já ocorreu. Em sua defesa, partiu para o ataque. Sua nota, em que nomeia ex-ministros que ficaram ricos depois que saíram do governo, é uma saída à La caseiro: uma aposta de que tem apoio de quem interessa do lado de fora do governo, e de quem consegue fazer isso prevalecer dentro do Congresso e do próprio núcleo de poder; a certeza de que a intimidação pode levar adversários ao corner. Como grande gerente da máquina de governo, conseguiu, por exemplo, traduzir isso em votos na Câmara para evitar sua convocação para prestar esclarecimentos. Confiante em sua própria capacidade de reverter uma situação contrária, apela com naturalidade ao discurso de que se todos fazem – ganham dinheiro depois que saem do governo –, ele também tem esse direito.


É uma situação que pouco contribui para a discussão de sistema político do país. Um debate de reforma política que abrir mão de entender por que é tão normal ex-dirigentes governamentais da área econômica acumularem fortunas depois que saem de cargos públicos será uma discussão sobre miçangas. O que é hoje, segundo o ministro, um padrão normal de relações, onde fatalmente um homem forte de governo se torna rico quando volta para a planície, é também um elemento importantíssimo de análise das causas da corrupção no Brasil. O discurso oficial, assumido pelos jornais e pela opinião pública, é o de que a classe política é intrinsicamente corrupta: faz parte da sua natureza ruim o político tirar proveito de seu mandato. O problema é bem mais amplo. Na verdade, num sistema onde transitam grandes vantagens privadas, a corrupção é um negócio que interessa tanto ao corruptor, como ao corrupto. Para os setores que têm interesses econômicos no governo, é uma situação muito mais cômoda arcar com os ônus de financiar campanhas políticas e contratar consultorias de quem tem informações de governo do que defender, por exemplo, o financiamento público de campanha. Num sistema político que é movido a dinheiro privado, esses recursos não apenas financiam partidos, mas escolhem nas agremiações quem vai representá-lo. O financiamento privado é uma terceirização da atividade partidária. O dinheiro mantém nos partidos homens fortes, cujos erros são relativizados, e todo o sistema político na defensiva, ao jogar para os representantes eleitos a responsabilidade exclusiva das mazelas morais da democracia.


sexta-feira, 20 de maio de 2011

Como eliminar a pobreza infantil

Via blog do Miro

A pobreza infantil na América Latina

Por Camila Queiroz, no sítio da Adital:

Na América Latina e no Caribe, 45% das crianças e adolescentes se encontram em situação de pobreza infantil, o que totaliza quase 81 milhões de menores de 18 anos. A conclusão é do estudo Pobreza infantil na América Latina e Caribe, realizado pela Comissão Econômica da América Latina e do Caribe (Cepal) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), tomando por base o período 2008-2009.


A pesquisa avalia fatores como a nutrição, acesso à água potável e serviços de saneamento, qualidade de moradia e número de pessoas por quarto, educação e acesso aos meios de comunicação e informação.

A privação a esses bens representa um quadro de pobreza e exclusão, enquanto a Convenção Internacional sobre os Direitos das Crianças, que entrou em vigência em 1989, estabelece esses fatores como importantes para determinar a qualidade de vida dos pequenos.

Também se analisou a renda dos lares e a capacidade desses recursos em satisfazer as necessidades básicas das crianças e adolescentes. A conclusão não foi favorável. "Quase a metade das crianças latino-americanas e do Caribe vive em lares com rendas insuficientes para satisfazer suas necessidades básicas – o que afeta em especial aos mais novos – e há cerca de 4,1 milhões de lares com crianças que sofrem ao mesmo tempo a violação grave de seus direitos e fortes insuficiências de renda”, diz o documento.

Contudo, o estudo destaca que há bastante heterogeneidade entre os países com relação à porcentagem de menores de 18 anos em pobreza infantil. Na Bolívia, El Salvador, Guatemala, Honduras e Peru, mais de dois terços das crianças são pobres. Já no Chile, Costa Rica e Uruguai, menos de um quarto das crianças está nessa situação.

A pesquisa examinou a concentração geográfica da pobreza e das privações com o objetivo de obter uma visão territorial sobre o problema. "(...) se identificam zonas críticas onde a pobreza infantil se concentra e se associa, incluindo áreas fronteiriças, que indicam a presença de concentrações de pobreza em determinadas áreas geográficas”, afirma o documento.

A partir disso, pode-se analisar o contexto de oportunidades – como produção, acesso a serviços básicos e mercado de trabalho – e promover políticas em nível local, sugerem Cepal e Unicef.

Para eliminar a pobreza infantil, a pesquisa propõe a integração entre políticas sociais, políticas de emprego e políticas macroeconômicas; a redução das desigualdades socioeconômicas, territoriais, étnicas e de gênero; e promoção do acesso à alimentação, saúde e educação. Essas medidas devem contemplar as crianças desde cedo, para romper o ciclo de reprodução da pobreza, que atravessa várias gerações.

"Isto requer destinar mais recursos para promover os direitos da infância, assegurar um entorno protetor, aumentar a provisão e a qualidade dos serviços, como também ampliar os sistemas de proteção social”, sublinham, na introdução do documento, Alicia Bárcena, secretária executiva da Cepal, e Bernt Aasen, diretor regional do Unicef para a América Latina e o Caribe.

O documento completo está disponível para download no link: http://www.cepal.org/publicaciones/xml/6/42796/Libro-pobreza-infantil-America-Latina-2010.pdf

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Educação tratada com propriedade

Do Vi o mundo

Professora Amanda Gurgel cala secretária da Educação e deputados

Sugestão dos leitores Sandra Vaz, Maria Salete Magnoni, Zé Povinho, Maria Salete Magnoni e Henrique Pinheiro

Uma elite saudosa da escravidão.

Do Tijolaço

A falta de, sequer, uma avertência ao ato de racismo praticado pelo deputado Jair Bolsonaro – que, espertamente, desviou o foco para a questão da homofobia e ainda se projetou – está frutificando num sentimento cada vez maior de impunidade em relação à discriminação racial.
Mesmo com a denúncia do jornal O Dia de que uma empresa aceitava, pela internet,  pedidos de empregadas domésticas especificando a cor da “cútis” para escolher as candidatas, o site, até o meio-dia de hoje, continuava a colocar esta opção de seleção.
É inacreditável que num país que inscreveu o racismo como crime inafiançável – sobretudo como advertência para que o preconceito não se transformasse em atos concretos de discriminação – isto esteja acontecendo.
Não faz muito escrevi aqui que o Brasil tem uma elite saudosa da escravidão.
E ainda prefere que os escravos sejam brancos.
Vou procurar meu companheiro e amigo Edson Santos oferecer meu apoio á iniciativa que ele anunciou de procurar a Polícia Federal para que ela tome providências contra a empresa responsável por isso. O que, aliás, não precisaria nem ser pedido.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Saúde: a medicina fecha o cerco contra o AVC

Via Conteúdo Livre


OS NOVOS RECURSO PARA ENFRENTAR O AVC

A medicina fecha o cerco contra o AVC

Mônica Tarantino e Rachel Costa



O número de casos sobe entre os jovens. Mas um poderoso arsenal, composto por novos remédios, robôs e células-tronco, entre outras novidades, está ajudando a proteger e a reconstruir o cérebro


O menino Diogo Heidemann acordou no dia 18 de outubro de 2009 indisposto. Era domingo, dia de passeio, mas ele preferiu ficar em casa, localizada em Joinville, em Santa Catarina. Até então, para a mãe, a assistente de processamento de dados Inês, o problema do filho não passava de uma virose. Ela só se preocupou mesmo quando encontrou o garoto caído no chuveiro, minutos depois, com os braços e pernas paralisados e a boca torta. Desesperada e sem saber o que acontecia, correu com a criança para o hospital. O susto veio com o anúncio do neurologista: Diogo, então com 7 anos, acabara de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC). “Para mim ele estava daquele jeito porque tinha batido com a cabeça no chão durante o banho”, conta Inês. “Eu não sabia que derrame acontecia também com criança.” Felizmente, o menino recebeu pronto atendimento. Três dias depois, já estava em casa, andando e falando normalmente.

Um caso como o de Diogo chama a atenção. Como é possível um garoto de 7 anos, saudável, ter sido vítima de um problema que, pelo senso comum, atinge somente os mais velhos? Dados recentes obtidos em todo o mundo demonstram que, infelizmente, esta ideia está ultrapassada. O AVC, conhecido popularmente como derrame, também começa a acometer populações mais jovens. Só no Brasil, em nove anos, apenas entre homens de 15 a 34 anos, foi registrado um aumento de 64% nas internações por causa do AVC. Entre as mulheres na mesma faixa etária, o crescimento foi de 41%.O fenômeno intriga os especialistas. Acredita-se que parte do aumento no número de casos entre os mais jovens seja resultado de hábitos pouco saudáveis, que elevam o risco (sedentarismo e alto nível de colesterol total, por exemplo, são fatores de risco para o problema). Mas também se discute até que ponto os métodos mais eficazes de registro de casos disponíveis atualmente contribuem para a elevação oficial dos números.
Seja qual for o motivo, a constatação preocupa. A doença é a que mais mata em vários países – entre eles, o Brasil – e é a principal causa de incapacitação no mundo. Denominam-se AVC dois tipos de interrupção da irrigação sanguínea no cérebro: a causada por rompimento de um vaso (AVC hemorrágico) ou por seu bloqueio por um coágulo ou placa de gordura (AVC isquêmico). Em ambas as situações, os neurônios da região atingida morrem, resultando na perda da função correspondente à área. Se ocorrer na que controla a fala, por exemplo, o indivíduo pode até perder essa capacidade.

Tamanha gravidade está levando a medicina a fazer um esforço sem precedentes para barrar seu avanço. E tem obtido boas vitórias. As primeiras estão ocorrendo ainda na fase de prevenção e diagnóstico. Hoje se sabe muito mais sobre o que pode levar a um AVC. É consenso que as duas principais causas são a hipertensão arterial e o depósito de gordura nas artérias. “Esse é mais um motivo, entre tantos, para manter a pressão arterial e o colesterol nos níveis adequados e não fumar”, aconselha o renomado neurocirurgião Marcos Stavále, de São Paulo, autor do livro “Bases da Terapia Intensiva Neurológica”, lançado este mês. Também já é de conhecimento entre os médicos que outro fator importante são os aneurismas, bolsas de sangue que se formam na parede externa dos vasos sanguíneos e que rompem, causando hemorragia. Eles provocam um terço dos AVCs. Essa informação faz especialistas como Stavále defenderem a realização de pelo menos um exame de ressonância magnética do cérebro entre os 40 e 50 anos.
Ainda na área da prevenção, há avanços na esfera dos remédios. Recentemente, ganhou importância o uso do dabigatran, medicamento anticoagulante que pode substituir a varfarina (o mais usado) na prevenção em pacientes com fibrilação atrial – uma arritmia nos batimentos cardíacos responsável por muitos dos derrames mais graves. “Ele vai revolucionar a prevenção nesses casos”, considera a neurologista Sheila Martins, do Hospital das Clínicas de Porto Alegre. A principal vantagem é a simplificação no monitoramento do paciente, uma vez que o dabigatran dispensa a realização frequente de exames laboratoriais, coisa obrigatória no caso da varfarina. “Tenho pacientes usando e os resultados são bons”, diz o neurologista Robson Fantinato, do Hospital do Coração, em São Paulo.

Essas são medidas preventivas que podem ser tomadas hoje. E há opções em estudo para o futuro. Cientistas do Instituto Karolinska, na Suécia, por exemplo, descobriram um anticorpo que evita o depósito de gordura nos vasos sanguíneos. Portanto, quem fabrica a substância em abundância possui chances mais reduzidas de ter um AVC. Quem, ao contrário, tiver problemas na sua fabricação, apresenta risco mais elevado. Os pesquisadores criaram, então, um teste que mede a quantidade desses anticorpos no sangue. “Ele poderá ser usado para identificar os indivíduos que possuem mais riscos”, disse à ISTOÉ Johan Frostegard, líder do trabalho.
Uma certeza no que diz respeito ao AVC é que a agilidade no atendimento é essencial. Isso porque o tamanho do dano que provocará está diretamente associado à sua extensão. Quanto maior a área, mais graves as sequelas. Por isso, quanto mais rapidamente for controlado, menores as regiões atingidas. Há duas ações básicas que devem ser tomadas após o diagnóstico. Se o caso for de AVC hemorrágico, é necessário baixar a pressão arterial, evitando que o sangue continue sendo bombeado com vigor, e em geral, drenar o coágulo formado pelo sangue derramado, após a hemorragia cessar. No AVC isquêmico, deve-se ministrar os remédios trombolíticos. “Eles ativam o sistema fibrinolítico, responsável por destruir o coágulo”, explica o hematologista Ernesto de Meis, do Instituto do Câncer de São Paulo.

A janela de tempo para que os efeitos benéficos ocorram, porém, é pequena. “Os benefícios são conseguidos se o remédio for aplicado até as quatro ou cinco horas seguintes ao início do AVC”, disse à ISTOÉ a pesquisadora Sonia Alamowitch, da Universidade Pierre e Marie Curie, na França. Mas calcula-se que apenas 5% das pessoas cheguem ao hospital dentro desse limite. Passado esse tempo, em alguns casos, há a opção do cateterismo, procedimento médico mais delicado e realizado em poucos hospitais.
Um recurso que tem ajudado na hora da emergência é a telemedicina. Capaz de ligar, por meio de computadores, vários serviços de atendimento, o instrumento está garantindo o acesso rápido a um neurologista – ainda que esse profissional esteja a quilômetros de distância. Nos EUA, a Clínica Mayo, um dos principais centros de referência em pesquisas médicas, está interligada a outros dez hospitais menores, que não têm esse profissional na equipe. Quando um paciente com suspeita de AVC dá entrada nessas emergências, um neurologista da clínica é chamado para acompanhar o caso pela internet. “Já tratamos mais de 500 pacientes por meio da telemedicina”, diz Bart Damaerschal, diretor do Centro de Doenças Cerebrovasculares da clínica. No Brasil, o Hospital das Clínicas de Porto Alegre mantém iniciativa semelhante em cidades menores do Rio Grande do Sul e, em breve, coordenará o atendimento no Hospital 28 de Agosto, em Manaus.

Um empenho especial está sendo dedicado a descobrir formas de proteger os neurônios das consequências tanto da hemorragia quanto da falta de sangue. As baixas temperaturas mostram-se um bom recurso para isso. “Os testes com o resfriamento cerebral são uma das áreas mais promissoras de pesquisa atualmente”, disse à ISTOÉ o neurologista Seemant Chaturvedi, da Academia Americana de Neurologia. O método consiste em reduzir a temperatura corporal em dois graus, por meio da colocação de bolsas de gelo sobre a pele do paciente ou da infusão de soro frio por meio de cateteres. Isso faz com que as células reduzam seu metabolismo, consumindo menos oxigênio e dando aos médicos mais tempo para cuidar dos vasos sanguíneos danificados. “Alemanha, Reino Unido, Holanda, Itália, Suécia e Finlândia já estão aplicando a técnica para o tratamento do AVC”, disse à ISTOÉ Stefan Schwab, diretor do centro de pesquisas em Neurologia da Universidade de Erlangen, na Alemanha. Schwab está à frente de um grande estudo iniciado recentemente em 15 países sobre o tema.

Em Israel, Espanha e EUA, os cientistas investigam os efeitos protetores da redução do glutamato (substância cerebral). “A elevação do seu nível sobrecarrega os neurônios, contribuindo para sua morte”, explica o Thomas Carmichael, da Universidade da Califórnia. Na Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, uma pesquisa observou que as pessoas com pior recuperação e maior área cerebral afetada eram as que possuíam maiores índices de glutamato. “Ainda não temos as respostas definitivas sobre por que isso acontece, mas diminuir o glutamato tem efeito neuroprotetor”, falou à ISTOÉ a pesquisadora Angela Ruban, do Instituto Wizmann, de Israel.

Para outros pesquisadores, o desafio é posterior: interessa-lhes recuperar as células cerebrais debilitadas pelo derrame. Essas técnicas podem, no futuro, reverter uma triste realidade do presente. Atualmente, 75% das pessoas que sofrem um AVC ficam com algum tipo de sequela. “Tempo é cérebro. Por isso é importante começar a reabilitação o mais cedo possível”, diz a fisiatra Cristiane de Almeida, responsável pelo Centro de Reabilitação do Hospital Albert Einstein (SP). Em geral, os maiores ganhos ocorrem no primeiro ano após o AVC. Depois, a melhora se torna mais lenta. “Mas é necessário persistir. O cérebro nunca para de procurar caminhos para restabelecer suas funções”, diz Cristiane.

Nessa área, uma das principais pesquisas acontece na Universidade de Glasgow, na Escócia. É lá que estão acontecendo os primeiros testes usando células-tronco para recuperar as áreas cerebrais danificadas. Desde novembro, dois pacientes, de um total de 12, já receberam a injeção. “Em camundongos, após o implante de células-tronco houve a recuperação de algumas funções motoras”, disse à ISTOÉ o coordenador do experimento, o neurologista Keith Muir. “Esperamos que essas mesmas melhorias sejam vistas em humanos.”

Na Universidade de Loyola (EUA), o foco é fazer com que os axônios - terminações nervosas responsáveis por levar impulsos elétricos a outras células – cresçam novamente após o acidente. Nos testes em cobaias, aquelas que receberam o tratamento, feito com o uso de um anticorpo criado em laboratório, tiveram uma melhora de 78% da capacidade de fazer alguns movimentos. Os que não receberam melhoraram apenas 47%. “A terapia permitiu o crescimento dos axônios do lado afetado e a melhor restauração das funções”, explicou à ISTOÉ Gwendolyn Kartje, líder do estudo.
E até o açafrão-da-terra, tempero de origem asiática, pode ajudar no tratamento de sequelas. Moléculas de um dos seus compostos, a curcumina, foram isoladas em laboratório por pesquisadores americanos. Os resultados, em cobaias, foram a redução dos danos musculares e a melhoria da coordenação motora – acredita-se que pela capacidade da substância de recuperar estruturas responsáveis pela nutrição dos neurônios.

Outro caminho bastante promissor é a terapia robótica. Robôs criados no Massachusetts Institute of Technology já são usados em hospitais de primeira linha na Europa e nos EUA. “Comparada à reabilitação convencional, a terapia com os robôs apresenta um rendimento duas vezes maior no mesmo período”, disse à ISTOÉ o brasileiro Hermano Krebs, o engenheiro que inventou os robôs. “O mérito dessas máquinas está na sua interação fina com os movimentos do paciente”, explica o especialista. Se a pessoa não consegue completar um exercício virtual – pegar uma bola, por exemplo – o braço robótico delicadamente guia o braço humano a partir dos limites do paciente. “Isso auxilia o cérebro a reaprender os movimentos e a formar novas conexões neurais”, explica Krebs.

A necessidade de incentivar o interesse dos pacientes também influencia na recuperação. “Eles precisam estar motivados”, diz a fonoaudióloga Fernanda Papaterra. Ela trouxe ao Brasil um método canadense que combina teatro, exercícios e fisioterapia vocal. Usado pela ONG Ser em Cena, a terapia dá bons resultados na recuperação de pacientes que tiveram prejuízo na fala.

Mais uma aposta dos cientistas é a estimulação cerebral por ondas eletromagnéticas. Ela está sendo testada em vários países e, na Universidade de São Paulo, em 36 pacientes. Na técnica, uma bobina é colocada sobre a cabeça do doente. Ela gera ondas que atravessam o crânio e penetram o cérebro, atingindo áreas predeterminadas. “O objetivo é modificar o padrão de trabalho de áreas cerebrais para melhorar a reabilitação”, explica o psiquiatra Marco Marcolin, coordenador do Grupo de Estimulação Magnética Transcraniana do Hospital das Clínicas de São Paulo. “Avaliaremos os efeitos da EMT seis meses após o fim do tratamento”, explica a neurologista Adriana Conforto, líder da pesquisa.

domingo, 15 de maio de 2011

O Bolsa Família da Dilma

Do Vi o mundo
Marcos Coimbra: O plano de combate à miséria


O Bolsa Família da Dilma

Marcos Coimbra 13 de maio de 2011
Na Carta Capital


Marcos Coimbra: O plano de combate à miséria
Tereza Campello
 Uma das mais importantes decisões do governo Dilma Rousseff está prestes a se concretizar e poucas pessoas estão sabendo. Até o fim de maio, depois de meses de estudos e reuniões (que contaram com a participação ativa da presidenta), o Programa Brasil sem Miséria deverá ser lançado.

A meta é ambiciosa: de agora até 2014, acabar com a miséria absoluta no Brasil, mudando radicalmente a vida de 16,2 milhões de pessoas, sua população-alvo. Em nossa história, nenhum governo havia se colocado em um desafio desse porte.

Pena que algo tão relevante fique em segundo plano nas discussões políticas e nas atenções da mídia. Obcecados com o tema do “retorno da inflação”, ninguém se interessa por outra coisa. Ficamos presos à velha agenda: “Gastos públicos descontrolados”, “fatores de instabilidade” e “limites ao crescimento”.

Enquanto isso, um programa totalmente novo está em gestação. Se der certo, o Brasil sem Miséria vai ajudar a resolver um problema que sempre consideramos insolúvel e revolucionar a nossa sociedade.

É algo que Dilma anunciou na campanha como um de seus principais compromissos, mas que passou quase despercebido. No meio de tantas coisas sem pé nem cabeça que estavam sendo prometidas, é até compreensível que isso tivesse acontecido.

Depois da eleição, uma das tarefas nas quais ela mais se empenhou foi na finalização do programa. A versão que será em breve anunciada tem sua marca pessoal.

Aliás, na hora de escolher o slogan do governo, ela optou pela frase “País Rico É País sem Pobreza”, no lugar do que Lula preferia, “Brasil: um País de Todos”. Ou seja, o novo programa é bem mais que apenas outro na área social.

A ideia é simples de enunciar, mas a concretização é complicada. Como disseram suas responsáveis diretas, a ministra do Desenvolvimento Social e a secretária extraordinária para a Erradicação da Pobreza, em entrevista recente, a premissa do programa é que, para erradicar a miséria, é preciso dirigir aos segmentos mais vulneráveis da população ações que assegurem: 1. A complementação de renda. 2. A ampliação do acesso a serviços sociais básicos. 3. A melhora da “inclusão produtiva”.

Como se pode ver, é muito mais que o Bolsa Família, mas dele decorre. Sem a experiência adquirida nos últimos anos, seria impensável um programa como esse, que exige integração de vários órgãos do governo federal, articulação com estados e municípios e capacidade de administrar ações em grande escala. Além disso, é mais complexo, pois implica desenhar soluções específicas para cada segmento, comunidade ou até família, em vez de lhes destinar um benefício padronizado, por mais relevante que seja.

Com ele, tomara desapareçam duas coisas aborrecidas de nosso debate político. De um lado, a reivindicação de paternidade do Bolsa Família que Fernando Henrique e algumas lideranças tucanas repetem a toda hora. De outro, as opiniões preconceituosas contra programas do gênero, típicas de certas classes médias, para quem transferir renda é uma esperteza que subordina beneficiários e perpetua a pobreza. Daí a dizer que Lula é produto do Bolsa Família é um passo.

O curioso na pendência a respeito de quem inventou o Bolsa Família é que o Bolsa Escola, criado no governo FHC, tem sua origem em algo que nasceu dentro de uma administração petista, a do Distrito Federal, quando Cristovam Buarque foi governador. O que foi implantado em Campinas à época em que o tucano Magalhães Teixeira era prefeito tinha pouco a ver com desempenho ou frequência- -escolar, pré-requisitos do Bolsa Escola.

Discussões como essa perdem sentido ante o novo. Onde estaria seu DNA peessedebista se o Bolsa Escola era algo tão mais limitado e menor? Como insistir no discurso do “Fui eu que fiz?”

Aos críticos do maquiavelismo petista, o Brasil sem Miséria responde com sua concepção inovadora e disposição de fazer. Quem levou o Bolsa Família a ser o que é tem crédito para se propor um desafio dessa envergadura.

Mas o importante mesmo é a perspectiva que se abre de que a miséria seja enfrentada para valer. Essa é uma dívida que o País precisa pagar.

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi. Também é colunista do Correio Braziliense.



terça-feira, 10 de maio de 2011

"Sem Filhos"

VIA PORTAL NASSIF

40 motivos para não ter filhos

Da Livraria da Folha

Livro de apenas R$ 9,90 cita 40 razões para não se ter filhos
 

"Sem Filhos" é uma provocante reflexão sobre um ideal há muito construído. A maternidade é atualmente questionável, como aponta a autora Corinne Maier.
Com 40 razões, Maier rebate tabus, ideologias e agressões de egoísmo por parte das mulheres ou casais que optam por não ter crianças, e entende que aos poucos a sociedade começará a fugir da hipocrisia e reconhecer que, dentre as escolhas, é melhor não ter mesmo do que criar com má vontade, sem estrutura ou afeto.
Como sugere a obra, o mundo moderno, a mulher moderna que trabalha, namora e vive, deve ter a opção de escolha e não pode ser julgada só porque quer dedicar mais tempo para ela mesmo, para o relacionamento e carreira.
Do mesmo modo, levanta questões mais apimentadas para fazer refletir, apesar da natural polêmica que caminha junto. Uma das razões apontadas para não se ter filhos é que eles acabam com a vida sexual do casal, além de levantar a bandeira que já existe muita gente no mundo e isso, é claro, afeta até o meio ambiente. Para a autora, é possível alcançar a plenitude sem filhos.
Um dos pontos fortes da discussão, é quando desconstrói o percurso natural de pais e filhos no mundo de hoje e que, em grande parte dos casos, tende para o fracasso.
As crianças nascem, são paparicadas ou ignoradas (ainda busca-se o equilíbrio), elas cada vez "custam mais" por conta de escolas, brinquedos, cursos alternativos, e depois de 20 anos, quando crescidas, por vezes não viram ninguém e escolhem viver "sob as asas dos pais".
Vale privar seu real prazer apenas para seguir um costume da sociedade? Isso é o que a autora questiona. Agora, quem quer ter filhos, para os que têm esse desejo, eles são muito bem-vindos e cada um faz seu caminho.
O que a autora quer mostrar é que as escolhas devem ser livres, e os julgamentos restritos ao ouvido do parceiro, e que cada um cuide da sua felicidade, com ou "Sem Filhos".
"Sem Filhos"
Autora: Corinne Maier
Editora: Intrinseca
Páginas: 160
Quanto: R$ 9,90 (preço promocional)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O oxi e o crack: DROGA ILÍCITA é como a moda: passa uma, vem outra.

VIA CONTEÚDO LIVRE

DRAUZIO VARELLA - O oxi e o crack

Enquanto concentrarmos esforços na "guerra contra as drogas", iremos ao sabor da droga da moda


DROGA ILÍCITA é como a moda: passa uma, vem outra.
Nos anos 1950, a classe média chamava a maconha de "droga de engraxate", com desprezo. Fumavam maconha apenas os marginais e a malandragem de rua; a burguesia endinheirada, jamais.
Na esteira do movimento hippie e da contracultura, a maconha se tornaria a droga preferida pela juventude, a partir da década de 1960. Os primeiros a aderir foram os universitários e os intelectuais, depois vieram os mais jovens e os iletrados, num processo insidioso e persistente que disseminou o uso em todas as camadas sociais.
Tradicionalmente mais cara do que a maconha, a cocaína foi considerada exclusiva dos mais abastados até o fim dos anos 1970. Na imaginação popular, o pó era consumido em reuniões, nos passeios de iate e nas festas em que os milionários faziam troca de casais.
A epidemia de Aids se encarregou de escancarar uma realidade menos fantasiosa.
Os primeiros casos da doença no Brasil foram diagnosticados a partir de 1982, exclusivamente entre homens homossexuais. Em seguida, começaram a surgir homens e mulheres heterossexuais dos bairros mais pobres, que haviam contraído o vírus ao compartilhar seringas e agulhas para injetar cocaína.
O acúmulo desses casos deixou claro que havia uma epidemia de cocaína injetável que se disseminava em silêncio na periferia das cidades grandes.
Quando cheguei ao Carandiru, em 1989, cansei de atender presos com as veias dos braços em petição de miséria, resultado das sucessivas picadas para injetar a droga nas condições mais precárias de assepsia que alguém possa imaginar.
Nesse ano, colhemos 1.492 amostras de sangue entre os que estavam inscritos no programa de visitas íntimas, com o objetivo de mostrar às autoridades do sistema prisional que era um absurdo a sociedade abrir as portas da cadeia para mais de mil parceiras sexuais daqueles homens, sem lhes oferecer qualquer tipo de informação nem lhes garantir acesso ao preservativo.
Os resultados mostraram que 17,3% dos presos eram HIV-positivos, quase todos infectados por seringas e agulhas. Estudo realizado mais tarde com as mesmas amostras revelou que 60% delas eram positivas para o vírus da hepatite C.
As mortes por Aids, a aparência física dos que chegavam ao estágio final de evolução e as campanhas educativas contra o uso de droga na veia acabaram com as injeções de cocaína no presídio, tendência que se espalharia pelas ruas da cidade.
Não havia motivo para comemoração, no entanto. A cocaína injetável foi imediatamente substituída pelo crack, preparação mais impura, mais barata e de uso compulsivo, que eliminava a necessidade da aplicação intravenosa.
A ausência completa de campanhas de esclarecimento nas escolas e nos meios de comunicação de massa, de estratégias de prevenção ao uso e de programas de saúde destinados a recuperar os usuários, permitiram que o crack se espalhasse feito praga e chegasse às cidades pequenas do país inteiro.
Quando uma das facções de prisioneiros assumiu a supremacia nas cadeias de São Paulo, seus líderes concluíram que o crack colocava o usuário num estado de insolvência financeira que prejudicava os interesses da organização. Como consequência, aconteceu o que eu jamais poderia imaginar, o crack foi banido das cadeias paulistas.
Nessa época, tive a esperança de que desaparecesse também das ruas, em analogia ao que acontecera com a cocaína injetável. Logo percebi a ingenuidade: é a droga que mais lucro dá ao traficante.
Agora, no auge da epidemia de crack, surge o oxi, preparação mais bruta ainda, resultado do tratamento da pasta de cocaína com querosene, cal e líquidos oxidantes, mais baratos do que o bicarbonato e o amoníaco usados na química do crack. Na cracolândia a pedra é vendida a R$ 2; a de crack custa R$ 10.
Caro leitor, é preciso ter curso de pós-graduação em drogas ilícitas para prever o que acontecerá?
Enquanto insistirmos em concentrar os esforços na "guerra contra as drogas", sem nos preocuparmos em reduzir o número de usuários que formam o mercado consumidor, iremos ao sabor da droga da moda, cada vez mais barata, compulsiva e destruidora.