quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Manifesto de Cristãos e cristãs evangélicos/as e católicos/as em favor da vida e da Vida em Abundância!

DO VI O MUNDO

“Se nos calarmos, até as pedras gritarão”, dizem católicos e evangélicos

“Se nos calarmos, até as pedras gritarão!”
Manifesto de Cristãos e cristãs evangélicos/as e católicos/as em favor da vida e da Vida em Abundância!
Somos homens e mulheres, ministros, ministras, agentes de pastoral, teólogos/as, padres, pastores e pastoras, intelectuais e militantes sociais, membros de diferentes Igrejas cristãs, movidos/as pela fidelidade à verdade, vimos a público declarar:
1. Nestes dias, circulam pela internet, pela imprensa e dentro de algumas de nossas igrejas, manifestações de líderes cristãos que, em nome da fé, pedem ao povo que não vote em Dilma Rousseff sob o pretexto de que ela seria favorável ao aborto, ao casamento gay e a outras medidas tidas como “contrárias à moral”.
A própria candidata negou a veracidade destas afirmações e, ao contrário, se reuniu com lideranças das Igrejas em um diálogo positivo e aberto. Apesar disso, estes boatos e mentiras continuam sendo espalhados. Diante destas posturas autoritárias e mentirosas, disfarçadas sob o uso da boa moral e da fé, nos sentimos obrigados a atualizar a palavra de Jesus, afirmando, agora, diante de todo o Brasil: “se nos calarmos, até as pedras gritarão!” (Lc 19, 40).
2. Não aceitamos que se use da fé para condenar alguma candidatura. Por isso, fazemos esta declaração como cristãos, ligando nossa fé à vida concreta, a partir de uma análise social e política da realidade e não apenas por motivos religiosos ou doutrinais. Em nome do nosso compromisso com o povo brasileiro, declaramos publicamente o nosso voto em Dilma Rousseff e as razões que nos levam a tomar esta atitude:
3. Consideramos que, para o projeto de um Brasil justo e igualitário, a eleição de Dilma para presidente da República representará um passo maior do que a eventualidade de uma vitória do Serra, que, segundo nossa análise, nos levaria a recuar em várias conquistas populares e efetivos ganhos sócio-culturais e econômicos que se destacam na melhoria de vida da população brasileira.
4. Consideramos que o direito à Vida seja a mais profunda e bela das manifestações das pessoas que acreditam em Deus, pois somos à sua Imagem e Semelhança. Portanto, defender a vida é oferecer condições de saúde, educação, moradia, terra, trabalho, lazer, cultura e dignidade para todas as pessoas, particularmente as que mais precisam. Por isso, um governo justo oferece sua opção preferencial às pessoas empobrecidas, injustiçadas, perseguidas e caluniadas, conforme a proclamação de Jesus na montanha (Cf. Mt 5, 1- 12).
5. Acreditamos que o projeto divino para este mundo foi anunciado através das palavras e ações de Jesus Cristo. Este projeto não se esgota em nenhum regime de governo e não se reduz apenas a uma melhor organização social e política da sociedade. Entretanto, quando oramos “venha o teu reino”, cremos que ele virá, não apenas de forma espiritualista e restrito aos corações, mas, principalmente na transformação das estruturas sociais e políticas deste mundo.
6. Sabemos que as grandes transformações da sociedade se darão principalmente através das conquistas sociais, políticas e ecológicas, feitas pelo povo organizado e não apenas pelo beneplácito de um governante mais aberto/a ou mais sensível ao povo. Temos críticas a alguns aspectos e algumas políticas do governo atual que Dilma promete continuar. Motivo do voto alternativo de muitos companheiros e companheiras Entretanto, por experiência, constatamos: não é a mesma coisa ter no governo uma pessoa que respeite os movimentos populares e dialogue com os segmentos mais pobres da sociedade, ou ter alguém que, diante de uma manifestação popular, mande a polícia reprimir. Neste sentido, tanto no governo federal, como nos estados, as gestões tucanas têm se caracterizado sempre pela arrogância do seu apego às políticas neoliberais e pela insensibilidade para com as grandes questões sociais do povo mais empobrecido.
7. Sabemos de pessoas que se dizem religiosas, e que cometem atrocidades contra crianças, por isso, ter um candidato religioso não é necessariamente parâmetro para se ter um governante justo, por isso, não nos interessa se tal candidato/a é religioso ou não. Como Jesus, cremos que o importante não é tanto dizer “Senhor, Senhor”, mas realizar a vontade de Deus, ou seja, o projeto divino. Esperamos que Dilma continue a feliz política externa do presidente Lula, principalmente no projeto da nossa fundamental integração com os países irmãos da América Latina e na solidariedade aos países africanos, com os quais o Brasil tem uma grande dívida moral e uma longa história em comum. A integração com os movimentos populares emergentes em vários países do continente nos levará a caminharmos para novos e decisivos passos de justiça, igualdade social e cuidado com a natureza, em todas as suas dimensões. Entendemos que um país com sustentabilidade e desenvolvimento humano – como Marina Silva defende – só pode ser construído resgatando já a enorme dívida social com o seu povo mais empobrecido. No momento atual, Dilma Rousseff representa este projeto que, mesmo com obstáculos, foi iniciado nos oito anos de mandato do presidente Lula. É isto que está em jogo neste segundo turno das eleições de 2010.
Com esta esperança e a decisão de lutarmos por isso, nos subscrevemos:
Dom Thomas Balduino, bispo emérito de Goiás velho, e presidente honorário da CPT nacional
Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Felix do Araguaia-MT
Dom Demetrio Valentini, bispo de Jales-SP e presidente da  Cáritas nacional
Dom Luiz Eccel – Bispo de Caçador-SC
Dom Antonio Possamai, bispo emérito da Rondônia
Dom Sebastião Lima Duarte, bispo de Viana- Maranhão
Dom Xavier Gilles, bispo emérito de Vina- Maranhão
Padre Paulo Gabriel, agente de pastoral da Prelazia de São Felix do Araguaia /MT
Jether Ramalho, Rio de Janeiro
Marcelo Barros, monge beneditino, teólogo
Professor Candido Mendes, cientista político e reitor
Luiz Alberto Gómez de Souza, cientista político, professor
Zé Vicente, cantador popular, Ceará
Chico César, Cantador popular, Paraíba/São Paulo
Revdo Roberto Zwetch, igreja IELCB e professor de teologia em São Leopoldo
Pastora Nancy Cardoso, metodista, Vassouras / RJ
Antonio Marcos Santos, Igreja Evangélica Assembléia de Deus – Juazeiro – Bahia
Maria Victoria Benevides, professora, da USP
Monge Joshin, Comunidade Zen Budista do Brasil, São Paulo
Antonio Cecchin, irmão marista, Porto Alegre
Ivone Gebara, religiosa católica, teóloga e assessora de movimentos populares.
Fr. Luiz Carlos Susin – Secretário Geral do Fórum Mundial de Teologia e Libertação
Frei Betto, escritor, dominicano
Luiza E. Tomita – Sec. Executiva  EATWOT(Ecumenical Association of Third World Theologians)
Ir. Irio Luiz Conti, MSF. Presidente da Fian Internacional
Pe. João Pedro Baresi, pres. da Comissão Justiça e Paz da CRB (Conferência dos religiosos do Brasil) SP
Frei José Fernandes Alves, OP. – Coord. da Comissão Dominicana de Justiça e Paz
Pe. Oscar Beozzo, diocese de Lins
Pe. Inácio Neutzling – jesuíta, diretor do Instituto Humanitas Unisinos
Pe. Ivo Pedro Oro, diocese de Chapecó/SC
Pe. Igor Damo, diocese de Chapecó-SC
Irmã Pompeia Bernasconi, cônegas de Santo Agostinho
Cibele Maria Lima Rodrigues, Pesquisadora
Pe. John Caruana,  Rondônia
Pe. Julio Gotardo, São Paulo
Toninho Kalunga, São Paulo
Washingtonn Luiz Viana da Cruz, Campo Largo, PR e membro do EPJ (Evangélicos Pela Justiça)
Ricardo Matense, Igreja Assembléia de Deus, Mata de São João/Bahia
Silvania Costa
Mercedez Lopes,
André Marmilicz
Raimundo Cesar Barreto Jr, Pastor Batista, Doutor em ética social
Pe. Arnildo Fritzen, Carazinho. RS
Darciolei Volpato,  RS
Frei Ildo Perondi – Londrina PR
Ir. Inês Weber, irmãs de Notre Dame.
Pe. Domingos Luiz Costa Curta, Coord. Dioc de Pastoral da Diocese de Chapecó/SC
Pe. Luis Sartorel,
Itacir Gasparin
Célio Piovesan, Canoas.RS
Toninho Evangelista – Hortolândia/SP
Geter Borges de Sousa, Evangélicos Pela Justiça (EPJ), Brasília
Caio César Sousa Marçal – Missionário da Igreja de Cristo – Frecheirinha/CE
Rodinei Balbinot, Rede Santa Paulina
Pe. Cleto João Stulp, diocese de Chapecó
Odja Barros Santos – Pastora batista
Ricardo Aléssio, cristão de tradição presbiteriana, professor universitário
Maria Luíza Aléssio, professora universitária, ex-secretária de educação do Recife
Rosa Maria Gomes
Roberto Cartaxo Machado Rios
Rute Maria Monteiro Machado Rios
Antonio Souto, Caucaia, CE
Olidio Mangolim – PR
Joselita Alves Sampaio – PR
Kleber Jorge e silva, teologia – Passo Fundo – RS
Terezinha Albuquerque
PR. Marco Aurélio Alves Vicente – EPJ – Evangélicos pela Justiça, pastor-auxiliar da Igreja Catedral da Família/Goiânia-GO
Padre Ferraro, Campinas.
Ir, Carmem Vedovatto
Ir. Letícia Pontini, discípulas, Manaus
Padre Manoel, PR
Magali Nascimento Cunha, metodista
Stela Maris da Silva
Ir. Neusa Luiz, abelardo luz- SC
Lucia Ribeiro, socióloga
Marcelo Timotheo da Costa, historiador
Maria Helena Silva Timotheo da Costa
Ianete Sampaio
Ney Paiva Chavez,  professora educação visual, Rio de janeiro
Antonio Carlos Fester
Ana Lucia Alves, Brasília
Ivo Forotti, Cebs – Canoas – RS
Agnaldo da Silva Vieira – Pastor Batista.  Igreja Batista da Esperança – Rio de Janeiro
Irmã Claudia Paixão, Rio de Janeiro
Marlene Ossami de Moura, antropóloga / Goiânia
Ir. Maria Celina Correia Leite, Recife
Pedro Henriques de Moraes Melo – UFC/ACEG
Fernanda Seibel, Caxias do Sul.
Benedito Cunha, pesquisador popular, membro do Centro Mandacaru – Fortaleza
Pe. Lino Allegri – Pastoral do Povo da Rua de Fortaleza, CE
Juciano de Sousa Lacerda, Prof. Doutor de Comunicação Social da UFRN
Pasqualino Toscan – Guaraciaba SC
Francisco das Chagas de Morais, Natal – RN
Elida Araújo
Maria do Socorro Furtado Veloso – Natal, RN
Maria Letícia Ligneul Cotrim, educadora
Maria das Graças Pinto Coelho/ professora universitária/UFRN
Ismael de Souza Maciel membro do CEBI – Centro de Estudos Bíbicos  Recife
Xavier Uytdenbroek, prof. aposentado da UFPE e membro da coordenação pastoral da UNICAP
Maria Mércia do Egito Souza agente da Pastoral da Saúde Arquidiocese de Olinda e Recife
Leonardo Fernando de Barros Autran Gonçalves Advogado e Analista do INSS
Karla Juliana Souza Uytdenbroek Bacharel em Direito
Targelia de Souza Albuquerque
Maria Lúcia F de Barbosa, Professora  UFPE
Débora Costa-Maciel,  Profª. UPE
Maria Theresia Seewer
Ida Vicenzia Dias Maciel
Marcelo Tibaes
Sergio Bernardoni, diretor da CARAVIDEO-   Goiânia – Goiás
Claudio de Oliveira Ribeiro. Sou pastor da Igreja Metodista em Santo André, SP
Pe. Paulo Sérgio Vaillant – Presbítero da Arquidiocese de Vitória – ES
Roberto Fernandes de Souza. RG 08539697-6 IFP RJ -  Secretario do CEBI RJ
Sílvia Pompéia.
Pe. Maro Passerini – coordenador Past. Carcerária – CE
Dora Seibel – Pedagoga, Caxias do Sul
Mosara Barbosa de Melo
Maria de Fátima Pimentel Lins
Prof. Renato Thiel, UCB-DF
Alexandre Brasil Fonseca , Sociólogo, prof. da UFRJ, Ig. Presbiteriana e coordenador da Rede FALE)
Daniela Sanches Frozi, (Nutricionista, profa. da UERJ, Ig. Presbiteriana, conselheira do CONSEA Nacional e vice-presidente da ABUB)
Marcelo Ayres Camurça – Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião – Universidade Federal de Juiz de Fora
Revd. Cônego Francisco de Assis da Silva,Secretário Geral da IEAB e membro da Coordenação do Fórum Ecumênico Brasil
Irene Maria G.F. da Silva Telles
Manfredo Araújo de Oliveira
Agnaldo da Silva Vieira – Pedagogo e Pastor Auxiliar da Igreja Batista da Esperança-Centro do Rio de Janeiro
Pr. Marcos Dornel – Pastor Evangélico – Igreja Batista Nova Curuçá – SP
Adriano Carvalho.
Pe. Sérgio Campos, Fundação Redentorista de Comunicações Sociais – Paranaguá/PR
Eduardo Dutra Machado, pastor presbiteriano
Maria Gabriela Curubeto Godoy – médica psiquiatra – RS
Genoveva Prima de Freitas- Professora – Goiânia
M. Candida  R. Diaz Bordenave
Ismael de Souza Maciel membro do CEBI – Centro de Estudos Bíbicos  Recife
Xavier Uytdenbroek prof. aposentado da UFPE e membro da coordenação pastoral da UNICAP
Maria Mércia do Egito Souza agente da Pastoral da Saúde Arquidiocese de Olinda e Recife
Leonardo Fernando de Barros Autran Gonçalves Advogado e Analista do INSS
Karla Juliana Souza Uytdenbroek Bacharel em Direito
Targelia de Souza Albuquerque
Maria Lúcia F de Barbosa (Professora – UFPE)
Paulo Teixeira, parlamentar, São Paulo
Alessandro Molon, parlamentar, Rio de Janeiro
Adjair Alves (Professor – UPE)
Luziano Pereira Mendes de Lima – UNEAL
Cláudia Maria Afonso de Castro-psicóloga- trabalhadora da Saúde-SMS Suzano-SP
Fátima Tavares, Coordenadora do Programa de Pos-Graduação em Antropologia FFCH/UFBA
Carlos Caroso, Professor Associado do Departamento de Antropologia e Etrnologia da UFBA
Isabel Tooda
Joanildo Burity  (Anglicano, cientista político, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco
Prof. Dr. Paulo Fernando Carneiro de Andrade, Doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Professor de Teologia PUC- Rio
Aristóteles Rodrigues  -  Psicólogo, Mestre em Ciência da Religião
Zwinglio Mota Dias  – Professor Associado III – Universidade Federal de Juiz de Fora
Antonio Francisco Braga dos Santos- IFCE
Paulo Couto Teixeira, Mestrando em Teologia na EST/IECLB
Rev. Luis Omar Dominguez Espinoza
Anivaldo Padilha – Metodista, KOINONIA,  líder ecumênico
Nercina Gonçalves
Hélio Rios, pastor presbiteriano
João José Silva Bordalo Coelho, Professor- RJ
Lucilia Ramalho. Rio de janeiro.
Maria tereza Sartorio, educadora, ES
Maria José Sartorio, saúde, ES
Nilda Lucia sartorio, secretaria de ação social, Espírito Santo
Ângela Maria Fernandes – Curitiba, Paraná
Lúcia Adélia Fernandes
Jeanne Nascimento – Advogada em São Paulo/SP
Frei José Alamiro, franciscano, São Paulo, SP
Ruth Alexandre de Paulo Mantoan
José Luiz de Lima
Gilberto Alvarez Giusepone Júnior (Prof. Giba), educador, São Paulo

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós!

Por Lola Aronovich, em seu blog

BOLSA-FAMÍLIA, EMPREGADA E ABORTO

No post sobre normalidade, a questão do aborto veio à tona noscomentários. E minha leitora Babsiix escreveu:

Lola, eu acho que essa questão do aborto é parecida com as bolsas dadas. Explico-me: a ideia de dar dinheiro é pra tentar diminuir as diferenças, ajudar quem não tem ou só tem dinheiro pra (mal) comer. Assim os pais podem comprar um brinquedo pros filhos, roupas, ter condições de dar um doce quando a criança pedir... Além do básico: pagar contas, ter um lugar pra morar, e feijão e arroz na mesa. Quando estava no colégio, uma professora contou a história da empregada dela, que resolveu se demitir porque fez as contas e viu que dava pra sobreviver, mesmo apertadinho, com o dinheiro que era recebido da bolsa. Sabe, isso me deixa meio triste, sem esperança que as coisas melhorem, porque tenho certeza que essa situação se repete. Entendo que a ideia seja boa, e acho louvável tentarmos diminuir as diferenças. Mas na prática... parece que as pessoas não entendem pra que serve aquele dinheiro. Agora quanto ao aborto: sim, se a mulher quiser abortar ela vai dar um jeito, em clínicas clandestinas e sem cuidado algum. E sim, a saúde e a integridade da mulher são questões importantes, logo a legalização é algo bom. Entendo que as mulheres não gostam de abortar. Sei que vou soar arrogante, mas lá vai. Tenho quase certeza que a legalização do aborto, que visa proteger as mulheres, vai ser usada de forma banal, já que será visto como "menos uma consequência a se arcar com o não-uso da camisinha". Como a bolsa, são recursos para serem usados de forma consciente, o que na prática não acontece. 

Babsiix, a empregada da sua professora decidiu usar o benefício pra “sobreviver”, e ainda assim você acha que “as pessoas não entendem pra que serve aquele dinheiro”? “Sobreviver” me parece um bom uso pro dinheiro. Eu ouço bastante essa queixa vinda de gente de classe média: “minha empregada não quer mais trabalhar”. Minha dúvida é: as pessoas que reclamam disso gostariam de ser empregadas? A maior parte das pessoas que recebe auxílio adoraria trocar de vida com as pessoas de classe média, ainda que fosse pra ter a vida sofrida e trabalhadora e cheia de sacrifícios que, aparentemente, só a classe média tem. Você não acha que se, de repente, o salário que se paga a uma empregada está muito próximo ao valor do auxílio, o problema está no salário, não no auxílio?
Outra coisa que vivo ouvindo é que “país civilizado é outra coisa”. A classe média brasileira (no que é idêntica à classe média de outros países pobres) só falta babar ao elencar as qualidades dos EUA. Lá não ocorrem as barbaridades que ocorrem aqui, pensa essa classe. É um ledo engano: ocorrem, sim. Mas sabe o que realmente não tem nos EUA com a frequência que tem aqui? Empregada doméstica. Elas são muito caras pra uma família de classe média conseguir pagar. E isso da empregada morar na casa da família e trabalhar dia e noite, seis dias por semana, com uma folguinha “quando der”, simplesmente não existe. Nos EUA não tem quarto de empregada. Sabe, esses cubículos sem janela onde só cabe uma cama em pé e que nossos respeitáveis arquitetos decretam que todo lançamento imobiliário deve ter? Lá não tem. Americano de classe média pode até ter uma diarista pra limpar a casa uma ou duas vezes por semana, mas uma escrava doméstica é inviável. Vamos chamar as coisas pelo que elas são: é escravidão sim. Uma mulher pobre ter que abandonar sua própria família pra cuidar da dos outros, não ter vida além do trabalho, ter um emprego sem perspectivas, que pague um salário minúsculo, e precisar andar pelo elevador de serviço pra não se misturar com os patrões da casa grande? Sei não, tirando a parte do salário, parece bem parecido com o que sei sobre escravidão. 
E aí a gente condena quem tenta sair dessa vida? Tem que fazer malabarismo pra sobreviver com bolsa-família. Se um salário mínimo (que vem obtendo aumentos reais no governo Lula, e agora irá pra R$ 465 - pouquíssimo ainda, mas compare com os números do FHC) não cobre tudo isso que você falou, duvido muito que com a bolsa-família dê pra pagar aluguel, comida, roupas, transporte e ainda sobre pra comprar doces e brinquedos pro filho. Pessoas contra o auxílio criticam que alguns pobres comprem eletrodomésticos (em 24 prestações. Só classe média deveria poder comprar máquina de fazer pão, né?). Mas não há dúvida que o bolsa-família está injetando dinheiro na economia e contribui para que muita gente tenha melhorado de vida. O indicador que pela primeira vez na história 52% da população brasileira é de classe média já diz tudo. E não sei se você lembra quando, no início do governo Lula, período em que os benefícios foram ampliados, houve alegações de que esses pobres não eram de confiança, que os homens iam gastar tudo em cachaça, e que o melhor seria pagar o benefício à mulher da família. Puxa, parece que os pobres são mais inteligentes do que pensávamos.
Aí você emenda esse assunto com a legalização do aborto. É, sem dúvida, uma ligação perigosa, porque esses temas costumam andar juntos desde a invenção da eugenia, lá por 1880. Os princípios são os mesmos: pobres, mulheres, negros, pessoas com desabilidades etc são seres inferiores, que não conseguem cuidar de si próprios. É pra melhorar a vida deles que o homem branco de classe média e alta interfere, tão altruisticamente. O homem branco sabe que pra mulher negra é ótimo trabalhar de escrava em sua casa! É pro seu próprio bem. Como seres inferiores, essas minorias são incapazes de tomar decisões conscientes. Por que, então, deveriam poder reproduzir? É ruim pra espécie humana! Só a classe média deveria ter filhos. Falando em reprodução: a gente reproduz o mesmo discurso do nazismo e nemfica corada!
Quando a gente fala em legalizar o aborto, está no fundo falando das mulheres pobres. Mulher de classe média pode pagar uma clínica onde não corra risco de vida ao abortar, certo? Nos países onde o aborto foi legalizado, não houve nenhuma explosão no número de abortos, apenas despencou o número de mulheres mortas em consequência de abortos malfeitos. Aborto não substitui métodos anticoncepcionais de forma alguma. É um procedimento doloroso e traumático, e a maior parte das mulheres sabe disso. Não dá pra pensar que alguma moça vai falar pro parceiro: “Não vamos usar camisinha hoje. Se eu engravidar, faço um aborto e tá tudo bem”. É fato, infelizmente, que muitas mulheres - de todas as classes sociais - se preocupam com o prazer do parceiro em primeiro lugar. Somos criadas para sempre pôr a felicidade dos outros antes da nossa, e pra não discutir muito. Logo, se um parceiro diz que camisinha atrapalha mas que não tem problema não usar, porque ele “tá limpo” e vai gozar fora, várias mulheres acatam. Eu tive muitos parceiros sexuais durante a minha adolescência, nos anos 80, e era raríssimo algum que tomasse a iniciativa de usar camisinha. Se eu não exigisse e fincasse o pé, eles não estavam nem aí. E, adivinhe? Eram todos de classe média. 
Acho incrível como os homens costumam se manter à margem dessa discussão, como se mulher engravidasse sozinha. (Perceba nas campanhas anti-aborto como a mulher desaparece. Esta ao lado diz: "Assim que é concebido, um homem é um homem". Umhomem, não uma mulher. E quem assina a pérola? O pai da genética moderna, sucessor direto da eugenia!). Homem em geral só aparece pra dar pitaco contra o aborto. Lógico: não é ele que vai ter que parar de estudar ou trabalhar pra se dedicar ao bebê. Sinal de que o machismo segue forte na nossa sociedade é que aresponsabilidade pela gravidez ainda recaia inteiramente sobre a mulher. A falta de educação sexual contribui, lógico. Muita gente não tem a menor ideia de como se engravida ou dos métodos anticoncepcionais possíveis. E muitos desses métodos estão disponíveis em postos de saúde. Tem quem ache que não se engravida na primeira transa. E tem a teoria da infalibilidade dos jovens, que pensam que as coisas ruins (e gravidez precoce é algo ruim) não acontecem com eles, só com os outros. Tem casalzinho apaixonado que pensa que o amor vai triunfar acima de tudo, que o amor é antídoto contra gravidez e Aids. E é óbvio que essas crenças não são privilégio dos pobres. Quando o sexo for encarado com mais naturalidade, como algo que todo mundo faz e é bom (e, portanto, vamos fazer do jeito certo, que é se cuidando), não como um tabu ou motivo de vergonha pra mulher, os casos de gravidez indesejada e de abortos vão cair. Enquanto isso, legalizar o aborto é uma questão de justiça social. De dizer pra mulher pobre que ela também tem o direito, como a mulher rica, de interromper uma gravidez. Isso se ela quiser. A decisão deve ser dela. Não de alguém de classe média que, no fundo, vê a pobreza como algo positivo. Porque, se os pobres acabarem, aí sim vai ficar difícil encontrar empregada doméstica. 

Post publicado originalmente em 29/01/2009

VOLTANDO A ANDAR NO CAMINHO CERTO

DO VI O MUNDO

Fátima Oliveira: Quero a República terrena de volta!

Perdi a paciência: quero a República terrena de volta!
Mandaram pras cucuias a separação entre Igreja e Estado
fatimaoliveira@ig.com.br
Afinal, o que é República (do latim, res publica: coisa pública)? E a pauta de quem aspira governá-la? Parece óbvio que o debate eleitoral numa República (regime de governo) tem como eixo a defesa dos valores e dos princípios republicanos. Sob a democracia (regime político) nunca vi uma eleição para a Presidência da República tão carente de espírito republicano quanto a que está em curso. Alguém esqueceu que “isso aqui”, o Brasil, é uma República?
No segundo turno piorou. Candidaturas abriram mão dos ideais republicanos, mandando pras cucuias um princípio basilar da República: a separação entre a Igreja (religião) e o Estado, esquecendo que as religiões contrárias ao aborto sabem que a postura delas é inútil para detê-lo até entre suas fiéis, portanto não pregam contra o aborto, mas contra a existência, e até a possibilidade, de leitos hospitalares para o aborto, tanto que onde eles não existem não há polêmica! Não é fanatismo religioso, é indiferença para com a vida das mulheres como princípio.
Sou mesmo uma besta quadrada, pois não sabia que Dilma ou Serra eram os papa-hóstias que dizem ser agora, só faltando dizerem que Deus é brasileiro e as urnas vão sacramentar a reencarnação Dele! Convicta de que a liberdade de religião é um direito constitucional, defendo que qualquer pessoa, quando bem lhe aprouver, torne pública sua religião. Porém, não silencio ao perceber que uma opção religiosa acena interferir nos rumos da República.
É o que está acontecendo agora de modo mais acirrado. Se o país vai bem e parte expressiva do povo saiu da miséria, pode piorar politicamente [Tiririca não estava com a razão ("pior do que está não fica")], caso as candidaturas insistam no veio não-republicano do engalfinhamento religioso, alçando o aborto à questão central do debate eleitoral de 2010, tema que, num olhar republicano, é do campo da cidadania e diz respeito a como a República cuida de suas cidadãs – e a nossa ainda deve muito às mulheres.
Urge que o embate eleitoral tome o rumo da deferência aos pilares que sustentam a República, que são o bem comum acima dos interesses individuais e das coletividades (grupos sociais); o laicismo; e a democracia. Em nome de quê se desrespeita aquilo a que se candidata a preservar? Ou é apenas proselitismo eleitoreiro dos mais rasteiros? Não sei responder às duas indagações. Mas elas evidenciam que vivemos tempos de indigência política e o espectro do fundamentalismo religioso ronda o Estado laico.
Estou bestificada de ver que o empenho das candidaturas (que viraram “a cara de uma o ‘fucim’ da outra”) não é genuinamente re-pu-bli-ca-no, mas provar quem detém o monopólio da carolice e da confiança da turba que se rege pelo fundamentalismo religioso, numa flagrante incompreensão do que é o regime de governo republicano e o regime político da democracia! Diante de tal cenário, conjecturo que ambos sequer leram o “Manifesto Republicano” (1870). Se o leram, esqueceram.
Diante da carolice desvairada, pedindo voto em nome de Deus – que nem é candidato a nada e nem precisa, pois para quem nele acredita, ele é TUDO -, não me contenho o grito: republicanos, uni-vos! E ouso dizer que quero a minha República terrena de volta, já! Quero a minha República de volta pelo simbolismo dos ideais libertários. Eu a quero também pelo que significa para o Brasil e sua gente – concreta, nascida, que materializa o princípio republicano de que “toda a autoridade política tem um mandato originado no voto popular”.